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#ArteviewNaPoltrona Review Manual Prático da Vingança Lucrativa (2026)

Manual Prático da Vingança Lucrativa chegou cercado por uma curiosidade quase irônica: um thriller de humor negro produzido pela A24, estrelado por Glen Powell e Margaret Qualley, com a promessa de transformar ressentimento em estratégia financeira.

A premissa é deliciosa — um herdeiro disposto a eliminar obstáculos familiares para acessar uma fortuna bilionária — e talvez seja justamente aí que o filme encontre sua maior força e, paradoxalmente, seu limite.

Há algo de empresarial na forma como o protagonista organiza seus passos, como se cada gesto fosse uma planilha emocional sendo preenchida. A vingança deixa de ser impulso e vira projeto. E isso me pareceu profundamente contemporâneo.

A ideia é mais afiada do que sua execução, o roteiro flerta com a sátira social, mas prefere a zona confortável do entretenimento elegante.

Glen Powell conduz o filme como um protagonista que oscila entre vítima ressentida e estrategista frio, e essa ambiguidade é o que sustenta a narrativa. Seu olhar entrega fissuras que o texto nem sempre desenvolve. Margaret Qualley, por sua vez, imprime presença magnética, quase imprevisível, como se estivesse sempre a um passo de desmontar a lógica racional que domina a história. Juntos, criam uma dinâmica que mantém o filme vivo mesmo quando o roteiro parece seguir trilhos já conhecidos.

Reconheço a inteligência da proposta, admiro o acabamento formal, mas saio com a sensação de que a lâmina poderia ter cortado mais fundo. Não é um filme vazio — há pensamento ali. Mas é um pensamento que prefere sugerir do que ferir. E quando falamos de vingança, talvez esperemos alguma ferida aberta.

Manual Prático da Vingança Lucrativa diverte, provoca e mantém o olhar atento, mas seu gesto mais perturbador não está nas ações do protagonista — está na ideia de que, em um mundo onde tudo pode virar negócio, até o ódio pode ser administrado.

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