“Epifania” transforma o vazio em musical
O que acontece quando criar deixa de ser um prazer e passa a exigir resultados? Essa é a provocação de “Epifania – Uma Fábula Moderna”, novo musical original de Vitor Rocha, que estreia em 28 de outubro, no Teatro Estúdio, em São Paulo. Com sete atores multi-instrumentistas em cena, a montagem mistura fantasia e questões contemporâneas, como solidão, excesso de estímulos e a busca constante por validação.
A história acompanha Filipa (Luiza Porto), uma compositora que conquista uma oportunidade capaz de mudar sua carreira, mas enfrenta um bloqueio criativo que ameaça seu talento musical. Ao lado do vizinho Valério (Diego Rodda), ela embarca em uma jornada fantástica para recuperar o dom de criar e reencontrar sua essência. Nesse percurso, surgem as Primas, interpretadas por Anna Toledo, Marília Lopes e Aline Cunha, figuras ligadas à origem de todas as criações.
Sem demonizar a tecnologia ou recorrer a discursos moralistas, o espetáculo aborda as contradições de uma geração permanentemente conectada. Entre notificações, comparações e distrações, os personagens experimentam a sensação de que algo mais importante acontece sempre em outro lugar — enquanto a conexão com quem está por perto acaba ficando em segundo plano.
A reflexão também aparece na estrutura narrativa. Marco França e Laura Castro interpretam Verso e Fábula, dois narradores que discordam sobre os rumos da história. Enquanto um quer avançar diretamente para o que considera essencial, o outro defende o tempo da fantasia e da construção narrativa. O embate brinca com as convenções teatrais e questiona a própria lógica da produção de conteúdo.
A música é parte central da experiência. Os sete atores se revezam em diferentes instrumentos, acompanhando uma trilha sonora original que combina canções, passagens instrumentais e silêncios. No palco, a cenografia parte do vazio para construir ambientes e imagens diante do público, em sintonia com a ideia de que toda criação começa em uma página em branco. A direção de movimento é de Fabrício Licursi, e os arranjos musicais são assinados por Marco França.
Um musical pessoal de Vitor Rocha
“Epifania” marca o décimo espetáculo de autoria de Vitor Rocha encenado e representa seu retorno a uma criação inteiramente própria após cerca de dois anos dedicados também à retomada de trabalhos anteriores e a projetos para outros contextos. O autor reconhece na trajetória de Filipa conflitos próximos aos de seu próprio processo criativo.
“Eu acho que nunca fiz um espetáculo tão pessoal na minha vida. É a minha cabeça aberta ali no palco, nessa história. O meu processo criativo visto de dentro”, afirma Vitor Rocha.
A ideia das Primas surgiu em janeiro, mas o projeto ganhou forma como seu próximo musical no fim de julho. Texto, músicas e letras foram desenvolvidos durante agosto e seguiram para os ensaios abertos às contribuições dos demais artistas envolvidos.
O título remete à epifania como um instante de percepção súbita, em que ideias dispersas encontram sentido. Para Rocha, essa descoberta passa pelo reconhecimento da própria essência e daquilo que cada pessoa pode criar e compartilhar com o mundo.
“Pensei muito durante esse processo: o que seria alcançar a minha essência? E acabei concluindo que a minha essência é fabulosa e fabulesca, é assim que as coisas ganham forma através de mim”, explica o dramaturgo.
Em cartaz até 17 de dezembro, com sessões às quartas e quintas-feiras, “Epifania – Uma Fábula Moderna” propõe uma reflexão sobre o que se perde quando experiências e ideias são avaliadas apenas por sua utilidade, velocidade ou resultado — e sobre o espaço necessário para que a criação aconteça.
Epifania – Uma Fábula Moderna
Estreia: 28 de outubro de 2026
Temporada: até 17 de dezembro
Sessões: quartas e quintas às 20h
Local: Teatro Estúdio
R. Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos, São Paulo – SP, 01203-001
Ingressos: R$ 120,00 [inteira] R$ 60,00 [meia]
Vendas: Sympla
Classificação: livre
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