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#ArteviewNaPoltrona Review de “O Drama” (2026)

Assisti O Drama (The Drama) um romance contemporâneo, talvez com algum toque de ironia, sustentado pelo carisma de Zendaya e Robert Pattinson. O que começa como uma história sobre um casal prestes a se casar se transforma em algo muito mais desconfortável, quase como se o amor fosse apenas o ponto de partida para uma investigação mais profunda.

A trama acompanha esse casal nos dias que antecedem o casamento. Entre ensaios, discursos e pequenos rituais típicos desse tipo de celebração, o filme constrói uma atmosfera aparentemente leve, quase íntima. Há um cuidado em mostrar esses momentos cotidianos, como a escolha do buffet ao lado dos padrinhos, experimentando pratos, brindando com taças de vinho de laranja, como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.

Durante esse encontro, surge uma espécie de jogo. Os padrinhos comentam que já compartilharam entre si a resposta para uma pergunta simples, mas carregada de peso: qual foi a pior coisa que você já fez? O que começa como uma conversa quase banal rapidamente muda de tom quando eles incentivam o casal a fazer o mesmo.

E é aí que o filme muda completamente.

O segredo revelado por Emma, personagem de Zendaya, não é apenas inesperado. Ele é profundamente perturbador. Um relato que remete à adolescência, a uma ideia que nunca chegou a se concretizar, mas que carrega um peso suficiente para desestabilizar tudo ao redor. O clima muda. O silêncio se impõe. E, a partir desse momento, nada volta a ser como antes.

A reação é imediata. Os padrinhos se afastam, questionam o próprio lugar naquele casamento. O noivo Charlie, personagem de Robert Pattinson, começa a revisitar tudo o que sabe sobre a mulher com quem está prestes a se casar. Existe um deslocamento inevitável. Não se trata apenas do que foi dito, mas do que aquilo revela. Ou do que pode revelar.

Emma tenta se explicar. Fala sobre ter apenas quinze anos, sobre não ser mais aquela pessoa. Existe uma tentativa de reconstruir a própria imagem dentro daquela relação. Mas o filme não facilita esse processo. Ele permanece nesse espaço desconfortável, onde a dúvida é mais forte do que qualquer justificativa.

Existe uma tensão silenciosa que atravessa tudo. Porque quando algo dessa dimensão é revelado, ele não desaparece. Ele permanece, circula, se instala nos olhares e nas presenças ao redor. E o que deveria ser apenas celebração passa a carregar também um peso difícil de ignorar.

A direção de Kristoffer Borgli entende exatamente o efeito que quer provocar. O filme flerta com a comédia em alguns momentos, mas nunca permite que o espectador se acomode. Há sempre algo fora do lugar, uma tensão que atravessa as cenas mais simples. O que poderia ser apenas um drama sobre relacionamento se transforma em algo mais instável, quase como um estudo sobre percepção, julgamento e limites emocionais.

Zendaya sustenta essa ambiguidade com precisão. Sua personagem nunca se revela completamente, como se estivesse sempre um passo atrás de qualquer tentativa de definição. Robert Pattinson constrói um noivo que reage a esse impacto de forma progressiva, absorvendo, questionando, se desestabilizando diante daquilo que não consegue compreender totalmente. Juntos, eles criam uma relação que não se apoia na química tradicional, mas em um constante atrito.

Existe uma provocação clara em The Drama. Não apenas naquilo que é revelado, mas na forma como o espectador é colocado diante disso. O filme não se preocupa em oferecer respostas fáceis. Ele prefere permanecer nesse espaço de dúvida, onde o amor deixa de ser uma certeza e passa a ser um questionamento constante.

No fim, não é um filme sobre romance. É sobre o momento em que a verdade, ou aquilo que acreditamos ser verdade, se torna grande demais para caber dentro de uma relação. E talvez seja justamente aí que ele encontra sua força mais incômoda.

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