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#ArteviewNaPoltrona Review de “Velhos Bandidos” (2026)

Quando sentei para assistir Velhos Bandidos, a sensação inicial era de leveza. O filme deixa claro desde o começo que não pretende ser grandioso ou complexo. Em vez de apostar em grandes reviravoltas ou discursos pesados, ele prefere seguir por um caminho mais direto, sustentado pelo carisma do elenco e pelo prazer de acompanhar essa história.

A trama acompanha Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura) , um casal de idosos que decide planejar um assalto a banco. O que poderia soar apenas como uma ideia curiosa ganha outra dimensão quando entendemos o que está por trás dessa decisão. Existe uma urgência ali, uma necessidade real que desloca o filme do campo da comédia para algo que também toca em sobrevivência, dignidade e nos limites do que é considerado certo.

No caminho, surgem Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta), dois jovens ladrões acostumados a aplicar golpes justamente em pessoas como eles. O encontro entre essas duas gerações cria uma dinâmica interessante, onde experiência e impulsividade se cruzam. Aos poucos, o plano deixa de ser apenas um crime e passa a funcionar também como uma troca. Mesmo sem se aprofundar tanto quanto poderia, o filme encontra momentos em que esses vínculos ganham força.

A direção de Claudio Torres assume um tom que mistura comédia, crime e farsa. Há um exagero consciente na forma como as situações se constroem, com diálogos que flertam com o novelesco e uma encenação que não tenta esconder esse jogo. O filme entende o tipo de história que quer contar e se mantém fiel a isso.

Por trás do humor, existe uma camada mais silenciosa. A ideia de envelhecer em um país que muitas vezes empurra seus idosos para a invisibilidade aparece de forma sutil. Esses personagens se recusam a ocupar esse lugar. Eles agem, tomam decisões e se colocam no centro da própria narrativa. Em certo ponto, o assalto deixa de ser apenas um objetivo e passa a funcionar como um gesto de enfrentamento.

O elenco é o que realmente sustenta o filme. Fernanda Montenegro e Ary Fontoura conduzem a história com uma naturalidade que vai além do texto. Existe um prazer evidente em vê-los em cena. Bruna Marquezine e Vladimir Brichta funcionam como contraponto geracional e ajudam a dar ritmo à narrativa, enquanto Lázaro Ramos como o investigador Oswaldo aparece como uma presença constante que mantém o movimento da história.

Ainda assim, o filme oscila. A transição entre comédia e drama nem sempre acontece de forma fluida, e há momentos em que o roteiro se alonga mais do que deveria. O próprio assalto, que deveria sustentar a tensão, perde força em alguns trechos.

Mesmo com essas irregularidades, Velhos Bandidos encontra seu espaço. Funciona como uma experiência leve, que não exige tanto do espectador, mas que também sugere mais do que aparenta à primeira vista.

No fim, o filme se sustenta menos pela história em si e mais pelo encontro entre esses personagens, esses atores e essas gerações. E, dentro dessa simplicidade, encontra um espaço honesto para existir.

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