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#ArteviewNaPoltrona Review de ‘O Testamento de Ann Lee’ (2026)

Quando saí da sessão de O Testamento de Ann Lee, da 20th Century Studios , fiquei com a sensação curiosa de ter visto um filme interessante, respeitável até… mas que talvez não desperte nas pessoas aquela urgência de recomendação. É o tipo de obra que se admira mais do que se ama e talvez seja exatamente aí que mora sua força e também sua limitação.

Dirigido por Mona Fastvold, o filme parte de uma figura histórica fascinante: Ann Lee, líder espiritual do século XVIII considerada por muitos historiadores como a primeira mulher a comandar um movimento religioso organizado. Fundadora da comunidade dos Shakers, uma dissidência dos Quakers, Ann Lee pregava igualdade entre homens e mulheres, vida comunitária e celibato — ideias radicais para a época. Perseguida na Inglaterra, ela acabou migrando para os Estados Unidos, onde seu movimento ganharia força e notoriedade.

O filme acompanha justamente esse período de transformação, observando a ascensão de Ann Lee como líder espiritual e a construção de uma comunidade baseada em fé, disciplina e rituais intensos. O Testamento de Ann Lee se constrói como uma experiência quase ritualística, um híbrido curioso entre biografia, musical religioso e estudo psicológico.

No centro de tudo está Amanda Seyfried, que entrega talvez uma das atuações mais interessantes de sua carreira. Sua Ann Lee não é uma líder óbvia. Há algo de frágil, quase febril em sua presença, como se a fé estivesse sempre atravessando o corpo antes de se transformar em palavra. Seyfried canta os hinos espirituais presentes no filme e conduz muitas cenas com uma intensidade silenciosa que sustenta boa parte da narrativa. É difícil imaginar o filme funcionando sem ela.

E isso talvez seja um dos pontos mais claros do projeto: o filme depende muito da protagonista para se manter pulsante. Quando ela está em cena, existe magnetismo. Quando se afasta, a narrativa às vezes perde força.

A diretora aposta em uma encenação que mistura espiritualidade, dança e música de forma quase litúrgica. As coreografias inspiradas nos rituais dos Shakers, que acreditavam na expressão física da fé, com movimentos e danças coletivas, se tornam parte essencial da narrativa. Não são números musicais tradicionais; são manifestações corporais da crença.

Em alguns momentos, essas sequências são hipnóticas. Em outros, podem soar excessivamente contemplativas. Há algo de experimental em sua linguagem, algo que lembra o rigor atmosférico de diretores como Robert Eggers ou até a espiritualidade inquieta de Lars von Trier.

A trilha sonora, construída a partir de hinos tradicionais da comunidade Shaker, reforça essa sensação de ritual. A música não está ali para emocionar no sentido clássico do musical, mas para criar atmosfera, para envolver o espectador em uma espécie de transe espiritual. É uma escolha estética interessante, mas não nem sempre emocionalmente ou envolvente.

O Testamento de Ann Lee é um projeto claramente ambicioso. Há pesquisa histórica, uma proposta estética definida, uma protagonista forte e uma direção que busca um olhar autoral sobre religião, corpo e liderança feminina. Mas, ao mesmo tempo, falta aquele momento em que o filme realmente nos atravessa.

A história é interessante. A personagem é fascinante. A construção visual é elegante. Mas, ao final, fica a sensação de que o filme permanece sempre um pouco distante, como se estivéssemos observando a fé de longe, sem nunca mergulhar completamente nela.

Então dificilmente é um filme que o grande público vai correr para assistir. E tudo bem. Porque, mesmo assim, O Testamento de Ann Lee ainda é um filme curioso de observar, principalmente por tentar transformar fé, história e corpo em cinema. E, às vezes, só essa tentativa já vale a experiência da sessão.

O Testamento de Ann Lee estreia dia 12 de março de 2026 nos cinemas.

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