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#ArteviewNaPoltrona Review de A Noiva (2026)

Assisti A Noiva! com a sensação de ter visto uma criatura cinematográfica ainda costurando a própria pele diante dos meus olhos. Um filme que não pede licença, que não quer ser confortável, que parece existir em estado permanente de tensão, como se lutasse o tempo todo contra a moldura que tenta contê-lo. Há algo de belo nisso. E há algo de descontrolado também.

Sob a direção de Maggie Gyllenhaal, a noiva deixa de ser acessório e passa a ser epicentro. O gesto é claro: recontar um mito que nasceu masculino a partir da perspectiva da criatura feminina que, historicamente, foi criada para servir. Aqui, ela não aceita o papel escrito para ela. Questiona a própria origem. E, nesse ponto, o filme se aproxima inevitavelmente de uma leitura feminista, não como discurso pronto, mas como inquietação.

O que significa nascer já destinada a satisfazer o outro? O que significa descobrir que sua existência foi planejada como complemento?

A base narrativa parte do imaginário clássico de A Noiva de Frankenstein, em que o monstro, condenado à solidão, exige de seu criador uma companheira feita à sua imagem. Feita para servi-lo.

Uma mulher construída a partir da morte, trazida à vida não por desejo próprio, mas como resposta à carência masculina. É desse gesto inaugural, romântico e perturbador, que o novo filme parte.

Há uma violência estrutural nessa premissa. A noiva é construída por homens, moldada por expectativas masculinas e, quando recusa esse destino, o mundo reage com hostilidade. O filme não fala literalmente de feminicídio, mas aborda uma aniquilação simbólica: a tentativa de controlar o corpo, o desejo e a narrativa de uma mulher. Quando ela se rebela, não é apenas contra um indivíduo, é contra um sistema.

A presença da detetive interpretada por Penélope Cruz amplia esse jogo de forças. E a cientista vivida por Annette Bening ocupa o território da criação, da inteligência, da autoria.

Esteticamente, o longa é gótico, sujo, quase punk. A fotografia abraça sombras densas; a direção de arte beira o teatral. Em alguns trechos, senti que estava diante de uma ópera sombria. O roteiro, ambicioso, tenta abarcar romance, horror, crítica social e comentário político.

Ainda assim, é impossível ignorar Jessie Buckley. Sua noiva é inquieta, feroz, vulnerável e desajeitada ao mesmo tempo. Ela não busca simpatia fácil. Há algo quase selvagem em sua presença. Ao lado dela, Christian Bale constrói um monstro Frankstein, que não é apenas grotesco, mas profundamente solitário. A relação entre os dois é menos sobre romance idealizado e mais sobre duas criaturas tentando entender o que significa existir fora do molde.

Saí da poltrona pensando que A Noiva! não é sobre perfeição narrativa. É sobre disputa de narrativa. Sobre quem escreve a história de um corpo feminino. Sobre quem define seu papel. Sobre o que acontece quando esse corpo decide não obedecer.

O filme pode ser irregular, mas há algo vivo ali — algo que respira com dificuldade, mas insiste em respirar. E talvez essa respiração irregular já seja, por si só, um ato de resistência.

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