Assisti a Marty Supreme antes da estreia oficial no Brasil, que acontece no dia 22 de janeiro, e talvez isso tenha mudado tudo. Ver o filme já carregado do barulho que ele provocou lá fora — dos prêmios, dos debates, das opiniões apaixonadas — faz com que a experiência venha contaminada de expectativa. Mas o que Josh Safdie e Timothée Chalamet entregam aqui não é exatamente um filme que se dobra ao hype. É um filme que briga com ele.
Inspirado na trajetória real de Marty Reisman, Marty Supreme acompanha um jogador de tênis de mesa genial e obsessivo que tenta se afirmar em um esporte marginalizado, enquanto trava batalhas constantes com seus próprios limites emocionais. Mais do que uma história sobre vitórias e derrotas, o filme observa o custo psicológico da ambição e o preço que se paga quando a necessidade de vencer se torna identidade.
Marty Supreme não quer ser simpático. Não quer ser inspirador no molde clássico do cinema esportivo. Ele quer incomodar. Quer que a gente sinta no corpo a obsessão desse homem que joga tênis de mesa como se estivesse disputando a própria sobrevivência.
E, honestamente, até gostei do filme. Chalamet me surpreendeu. Realmente, Marty Supreme é o filme da carreira do ator. Ele manda bem. Talvez não seja, para mim, a atuação mais avassaladora da temporada a ponto de colocá-lo acima de todos os outros indicados, mas é impossível negar: ele merece reconhecimento.
A atuação não nasce do carisma fácil, mas do risco. Chalamet constrói um personagem inquieto, tóxico, exaustivo — e isso não é um defeito, é o conceito. A performance que já lhe rendeu o Golden Globe e o Critics Choice surge justamente dessa entrega sem rede de proteção, de um ator que aceita ser pouco agradável para ser verdadeiro.
A direção de Josh Safdie potencializa essa sensação de caos controlado. A câmera nunca parece confortável, a montagem acelera quando a gente pede pausa, e o filme se recusa a organizar suas emoções de forma didática. Há momentos em que tudo soa excessivo, quase desordenado — e talvez seja exatamente aí que Marty Supreme encontra sua identidade. Ele não quer que a gente admire Marty. Quer que a gente sobreviva a ele.
Entendo perfeitamente quem sai do filme dizendo que o roteiro é confuso ou que falta empatia. Marty não foi escrito para ser um herói. Ele é um retrato cru da ambição quando ela vira vício. O esporte é apenas o palco; o conflito real é interno, psicológico, quase patológico. E Safdie parece interessado justamente nesse desconforto.
Saí da sessão com a sensação de ter visto um filme que não quer agradar — quer permanecer. Um filme que gruda, que incomoda, que insiste.






