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#ArteviewNaPoltrona Review de Valor Sentimental (2025)

Valor Sentimental (Sentimental Value, 2025) é daqueles filmes que não pedem pressa. Ele se aproxima devagar, observa, escuta — e só então toca. Dirigido por Joachim Trier, o longa confirma o cineasta norueguês como um dos grandes cronistas das emoções contemporâneas, interessado menos em grandes reviravoltas e mais nas marcas invisíveis que o tempo deixa nas pessoas, nas casas e nas relações.

A história gira em torno de uma família marcada por ausências, silêncios e memórias mal resolvidas. O reencontro entre pai e filhas acontece dentro de uma casa antiga, quase como um organismo vivo, carregado de lembranças, ressentimentos e afetos não ditos. Ali, cada cômodo parece guardar uma versão do passado — e Trier transforma esse espaço num espelho emocional dos personagens, onde o que não foi resolvido insiste em permanecer.

Stellan Skarsgård entrega um dos trabalhos mais contidos e dolorosos de sua carreira. Seu personagem carrega o peso de um homem que confundiu legado com abandono, arte com ego, paternidade com distância. Ao seu redor, Renate Reinsve constrói uma personagem dilacerada entre o desejo de pertencimento e a necessidade de se proteger emocionalmente. Há uma maturidade impressionante na forma como ela sustenta o silêncio, o olhar e o desconforto — e isso diz tanto quanto qualquer diálogo. Inga Ibsdotter Lilleaas complementa esse núcleo com uma presença delicada, quase espectral, enquanto Elle Fanning surge como um elemento deslocado, mas essencial, trazendo um olhar externo que ajuda a revelar as fissuras dessa família.

A força de Valor Sentimental está justamente na recusa ao melodrama fácil. O filme fala de trauma hereditário, da herança emocional que passa de geração em geração, da dificuldade de amar quando se aprendeu a sobreviver em vez de sentir.

Não à toa, Valor Sentimental foi um dos grandes destaques do Festival de Cannes 2025, conquistando o Grand Prix e acumulando elogios quase unânimes da crítica internacional. Com reconhecimento internacional e peso artístico, o longa surge como um concorrente real na temporada de premiações, podendo dividir atenções — e votos — com o brasileiro O Agente Secreto no Globo de Ouro e no Oscar de 2026.

Ainda assim, é um filme que pode dividir públicos: sua cadência lenta e sua densidade emocional exigem entrega. Não é uma obra que se impõe — ela convida. Quem aceita o convite, dificilmente sai ileso. Valor Sentimental fala sobre aquilo que permanece quando tudo parece ter sido dito. Sobre o que herdamos sem escolher. Sobre as tentativas — muitas vezes falhas — de reparar o passado. É um filme profundamente humano, que entende que amar também pode doer, e que algumas feridas não se fecham, apenas aprendem a coexistir com a memória.

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