#ArteviewNaPoltrona Review de O Agente Secreto (2025)
Kleber Mendonça Filho volta ao Recife de 1977 para transformar a memória em suspense político. Em O Agente Secreto, o diretor de Bacurau e Aquarius revisita a ditadura militar a partir do olhar íntimo e inquieto de Marcelo (Wagner Moura), um técnico em tecnologia que retorna à cidade natal após um período em Brasília.
Hospedado na pensão de Dona Sebastiana (Tânia Maria) — um refúgio para quem vive à margem do regime, entre exilados, artistas, comunistas e pessoas queer —, Marcelo busca a identidade da mãe falecida e tenta conseguir um passaporte falso para fugir do país com o filho. O que ele não sabe é que dois matadores de aluguel, Augusto (Roney Villela) e Bobbi (Gabriel Leone), foram enviados do Rio para persegui-lo.
Kleber constrói o filme como um mosaico de lembranças, segredos e ecos do passado. A história pessoal de Marcelo se mistura à história coletiva de um Brasil que tenta esquecer — e falha. A cada cena, o filme investiga o apagamento e a reinvenção da identidade, a tensão entre quem somos e quem precisamos fingir ser para sobreviver.
A direção de arte e o design de produção são primorosos: Thales Junqueira recria o Recife dos anos 1970 com uma precisão quase sensorial. Os cinemas de rua, o carnaval, as pensões e o cinema São Luiz — onde o mito urbano do “tubarão com a perna do banhista” se mistura à lenda da “perna cabeluda” — funcionam como memórias vivas de um país entre o medo e o absurdo.
Wagner Moura entrega uma atuação madura e silenciosa, marcada pela contenção e pelo olhar — um homem dividido entre o desejo de permanecer e a urgência de desaparecer. A cena em que lê a carta do filho é uma das mais delicadas e devastadoras de sua carreira. Tânia Maria, como Sebastiana, é puro carisma e resistência; seu olhar carrega décadas de histórias caladas.
O Agente Secreto é menos sobre espionagem e mais sobre vigilância — sobre um país que observa a si mesmo, e um povo que ainda tenta entender o que foi obrigado a esquecer. Kleber Mendonça transforma o passado em espelho, e o espelho em denúncia. Um cinema de memória, dor e beleza, que reafirma o poder da arte de lembrar o que tentaram apagar.
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