#ArteviewNaPoltrona Review de Depois da Caçada (2025)

Luca Guadagnino volta a explorar os limites entre o desejo, a ética e o tempo em Depois da Caçada (After the Hunt), um thriller moral que se passa no ambiente acadêmico, mas reverbera muito além dele. Aqui, o diretor substitui o calor carnal de Rivais por um frio desconforto intelectual — e a diferença é sonora.

Em Rivais, o som era pulsante, quase carnal: um batimento eletrônico que traduzia o desejo dos personagens. Já em Depois da Caçada, esse ritmo é trocado por um tic-tac insistente, o som de um ponteiro de relógio que marca a passagem do tempo, a culpa e a pressão da consciência. Guadagnino transforma o som em consciência — o que antes vinha do corpo, agora vem da mente.

Julia Roberts interpreta Alma, uma professora respeitada que vê sua reputação abalada quando uma aluna (Ayo Edebiri) levanta suspeitas sobre um colega (Andrew Garfield). O caso acadêmico logo se torna algo mais profundo: uma rede de lealdades, segredos e espelhos morais.


Roberts entrega uma de suas atuações mais densas dos últimos anos — sem charme de estrela, mas com uma vulnerabilidade que a torna fascinante. Sua Alma é feita de máscaras finas, prestes a rachar.

Ayo Edebiri, em contraste, é puro magnetismo. Sua presença inquieta e inteligente funciona como catalisadora da dúvida. Andrew Garfield, contido e ambíguo, é o tipo de personagem que faz o público hesitar entre empatia e repulsa. Essa indecisão é justamente o território onde Guadagnino brilha.

A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross é, mais uma vez, magistral. Os dois transformam o ambiente universitário em uma arena sonora de ansiedade, culpa e julgamento. O som do relógio, repetido como mantra, é o lembrete de que o tempo cobra — e ninguém escapa.

Visualmente, o filme é deslumbrante. A fotografia aposta em tons frios, quase claustrofóbicos, espelhando o ambiente de pressão intelectual e moral. Cada plano é uma espécie de confessionário visual: tudo parece bonito, mas nada é confortável.

O roteiro, de Nora Garrett, é ambicioso e toca em temas como poder, verdade, reputação e cancelamento, sem oferecer respostas fáceis. É um texto que exige atenção, e por vezes se perde em suas próprias camadas. Mas quando funciona, é devastador.

O desfecho de Depois da Caçada não é uma revelação, mas uma implosão silenciosa. Quando Alma confronta o peso de seus próprios erros e vê o passado se repetir diante de si, o filme nos pergunta: o que realmente muda quando a verdade vem à tona? No fim, é sobre como o tempo — mais do que o julgamento alheio — é o verdadeiro caçador.