A Primeira Família da Marvel recebe um recomeço — entre estética vintage, dilemas morais e a promessa de um legado em Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025).
Depois de anos de tentativas frustradas, a Marvel entrega um longa que resgata o espírito original do Quarteto, com afeto e reverência. É o primeiro passo de uma franquia que, enfim, parece ter encontrado seu tom.
Ambientado na Terra-828, uma realidade retrô-futurista inspirada nos anos 60, o filme começa com a equipe já formada e com poderes. Reed Richards (Pedro Pascal), Sue Storm (Vanessa Kirby), Johnny Storm (Joseph Quinn) e Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach) enfrentam a ameaça iminente de Galactus, um devorador de mundos que chega à Terra através do arauto Surfista Prateada — aqui vivida com presença elegante por Julia Garner.
Mas a grande virada é íntima: Sue está grávida. E a humanidade inteira — segundo Galactus — pode ser salva se abrirem mão da criança.
O que Primeiros Passos acerta é a base — família, ciência e sacrifício. O roteiro parte de uma premissa simples, mas com implicações complexas: o que é mais importante — o futuro de um planeta ou o futuro de uma criança?
Pedro Pascal dá um Reed Richards mais humano do que genial, com um toque de culpa e idealismo. Vanessa Kirby, como Sue, é o verdadeiro centro emocional: grávida, poderosa, decidida. Joseph Quinn traz leveza e rebeldia na medida para Johnny. E Ebon Moss-Bachrach é um Coisa/Ben dolorido, sensível, que talvez seja o coração mais visível do grupo. Eles funcionam juntos — e isso basta para criar empatia.
Visualmente, Primeiros Passos é um espetáculo. As cores vibrantes, a fotografia granulada, os figurinos que parecem tirados das capas de Jack Kirby: tudo evoca uma época em que o futuro era otimista e os heróis tinham dilemas claros. A direção de arte aposta num estilo quase “camp”, sem medo de parecer exagerada. Mas isso funciona: estamos diante de um filme que assume o formato HQ com orgulho.
A Terra-828 é uma realidade alternativa cheia de detalhes anacrônicos: tecnologias avançadas com design retrô, aviões que parecem vindos de brinquedos antigos, cidades onde tudo é analógico e ao mesmo tempo ultramoderno. É quase como se estivéssemos assistindo a um filme feito em 1965 com orçamento de 2025. E isso, curiosamente, dá personalidade.
A Marvel acerta em cheio nos vilões. Julia Garner entrega uma Surfista Prateada enigmática, serena e ameaçadora ao mesmo tempo. Galactus, por sua vez, aparece com força cósmica — mais como ideia do que como presença física o tempo todo.
Apesar dos acertos visuais e da química do elenco, o filme peca em ritmo e profundidade. Algumas subtramas somem sem resolução. Personagens secundários não têm espaço. E o terceiro ato, embora visualmente grandioso, resolve conflitos complexos de forma simples demais.
O filme tenta emocionar, mas sem entregar densidade emocional suficiente.
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos não é o filme mais ousado da Marvel. Mas talvez seja um dos mais afetivos. Resgata a origem de uma família de heróis com cor, coração e senso de propósito. É um filme que parece ter sido feito com carinho. E, hoje, isso já é muito.
