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#ArteviewNaPlateia – Review do musical Querido Evan Hansen

Por Léo Braga

Querido Evan Hansen é um daqueles musicais que arrebata a plateia para o bem ou para o mal. Eu explico:

A peça conta a história de Evan Hansen, um jovem adolescente com poucos — ou nenhum — amigos. Após quebrar o braço, seu gesso é assinado pelo valentão Connor. Com a morte de Connor, Evan se vê em um caminho de popularidade, construído sobre mentiras, em um desejo desesperado de não ficar sozinho.

O público se divide entre sentir empatia pelo personagem, que “só quer se sentir importante”, e raiva por ele “achar que pode se beneficiar de tantas mentiras”. De qualquer forma, é uma história sobre aceitação, relações interpessoais e os desafios dos dramas familiares.

Quando Dear Evan Hansen estreou na Broadway em 2016 e conquistou milhares de fãs, o ator Ben Platt, que interpretava o protagonista, já havia deixado a adolescência para trás há alguns anos. Aos 23, ele dava vida a um jovem de 16 anos e convencia muito bem a plateia. No Brasil, o nosso Querido Evan Hansen, Gab Lara, assumiu o papel aos 28 anos. Apesar da diferença de idade em relação ao personagem, Gab consegue tranquilamente se passar por um adolescente — mesmo sendo bastante alto. Voltaremos a falar sobre ele mais adiante.

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Foto: Ricardo Brajterman

Connor, o valentão, é interpretado por Hugo Bonemer, que parece não ter envelhecido um dia desde a montagem de Hair em 2012. Doze anos após viver o sonhador Claude, o ator continua com o mesmo rosto jovem — para a inveja de muita gente com algumas rugas a mais. Já a irmã de Connor, a adolescente Zoe, é interpretada por Thati Lopes, conhecida pelos esquetes no Porta dos Fundos, filmes e a novela Terra e Paixão da Rede Globo.

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Foto: Julio Leão

A verdadeira magia do teatro acontece no palco de Querido Evan Hansen: Acreditamos! Embora todos os atores que interpretam os adolescentes já tenham deixado essa fase da vida há algum tempo, suas interpretações são tão bem construídas que você rapidamente acredita que aqueles em cena são realmente adolescentes em crise. Os atores conseguem sustentar seus papéis de adolescentes a cada segundo, até que as cortinas se fechem.

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Foto: Julio Leão

O elenco adulto é composto por Vanessa Gerbelli, como Heidi Hansen (mãe do protagonista), Flávia Santana e Mouhamed Harfouch, como Cynthia e Larry Murphy, respectivamente (pais de Connor e Zoe). Todos desempenham muito bem o papel de pais, mesmo que, às vezes, sejam péssimos pais. Vanessa, que tem uma longa trajetória em musicais, se destaca pela atuação, embora não seja a melhor voz do espetáculo. Em compensação, Flávia entrega tudo com um vozeirão que demonstra toda a alma na canção.

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Foto: Ricardo Brajterman

Uma das cenas mais emocionantes do espetáculo, daquelas capazes de arrancar lágrimas da plateia, é o momento a sós entre Evan e Larry. Gab e Mouhamed brilham ainda mais nessa cena. É um diálogo difícil entre um pai que perdeu seu filho e um jovem que nunca teve um pai. Aplaudo essa cena com o coração na mão e os olhos marejados.

Fazer os olhos se encherem de lágrimas parece fácil para Gab; ele consegue emocionar o tempo todo. Ele traz uma nova abordagem ao papel, cantando com a voz de cabeça e suavizando o personagem, que é essencialmente frágil. Isso torna o espetáculo muito mais poético e belo.

E, por falar em beleza, vamos falar do cenário da Natália Lana. As fotos de divulgação do espetáculo não fazem jus à sua beleza ao vivo. Não é possível capturar, através de imagens estáticas, o quanto o cenário contribui para a narrativa e o quanto ele funciona bem na contação da história.

Já a iluminação com muitos tons de azul, desenhada por Dani Sanchez, ajuda a espelhar o interior mais profundo de Evan e, somada à interpretação do Gab, nos ajuda a entender exatamente o que o personagem sente.

Apesar de ser uma direção original e não uma réplica da Broadway, Tadeu Aguiar, que também assina a tradução e versões, optou por não abrasileirar o musical. A história continua se passando nos EUA, mas também fica claro que é universal e poderia ocorrer em qualquer lugar. Querido Evan Hansen é mais um grande acerto de um Tadeu que já é conhecido por sua assertividade em sua carreira.

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Foto: Ricardo Brajterman

Entre todos que compõem o elenco, a única que eu ainda não conhecia era Tati Christine, que interpreta Alana, uma jovem que se aproveita da morte de Connor para ganhar notoriedade. E que bom que este espetáculo me apresentou à atriz. Tati é um nome que você deve guardar — você vai querer ver um musical inteiro apenas com músicas cantadas por ela. Vamos torcer para vê-la nos muitos musicais anunciados para breve!

Mais um momento de encanto no espetáculo é o carismático Jared, interpretado magistralmente pelo igualmente carismático Gui Figueiredo. Deixei para comentar mais ao final porque Jared é um oásis de risadas em meio a uma tempestade de lágrimas. Ele é o único amigo de Evan (embora diga várias vezes que não são amigos) e conhece todas as mentiras, ajudando Evan a manipular as pessoas para acreditarem nelas. Com seu jeito meio bufão e um tanto depravado, Jared é o grande e necessário alívio cômico da história. “Ah, como são necessárias essas risadas no meio de tudo o que acontece!

Querido Evan Hansen nos entrega potência e uma mistura de sentimentos. Esta encenação capta a essência da história e dos personagens com um elenco que se entrega completamente à cena. Você sairá do teatro — ou com o rosto inchado ou a maquiagem borrada — com uma profunda reflexão sobre o que é verdade, solidão e o desejo desesperado de pertencimento em um momento em que a internet exige tanto que nossas vidas sejam perfeitas.

Vale lembrar que, por tratar de temas delicados como fobia social, depressão e suicídio, o espetáculo pode apresentar gatilhos para pessoas sensíveis a esses assuntos.

Querido Evan Hansen

Até dia 22 de Setembro
Sexta às 21h00, Sábado e Domingo às 16h00, Sábado e Domingo às 20h00
Teatro Liberdade – R. São Joaquim, 129, São Paulo – São Paulo
Ingressos: Sympla

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