Por Léo Braga
Assistir a um espetáculo do Vitor Rocha é sempre uma delícia e, não por acaso, ele se tornou o queridinho do Teatro Musical Brasileiro nos últimos tempos. Isso se destaca ainda mais em um momento em que poucos dos nossos musicais fogem de biografias e jukebox, Vitor cria musicais sempre originais, que nos cativam, e Donatello não é diferente.
O musical/monólogo já havia cumprido temporada em São Paulo e, por diversos motivos, não consegui assistir a nenhuma das sessões. Não me restava outra opção a não ser me conformar e seguir com a esperança de uma nova temporada. E ela aconteceu…
A nova temporada foi anunciada, e lá fui eu, sem nem saber do que se tratava o espetáculo. Não quis ler nenhum resumo antes para poder ter uma experiência completamente nova.
Amigos que já tinham assistido à primeira temporada me falaram repetidas vezes que era uma peça linda. E tudo o que eu sabia ainda era que o cartaz continha o Vitor e sorvete.
É comum dizer que cada sessão de uma peça é diferente da outra, por não ser algo gravado. Mas em Donatello, isso se torna ainda mais verdadeiro, já que o espetáculo começa com o Vitor conversando com a plateia e fazendo algumas perguntas. Nem percebemos se a peça já começou ou se é apenas um aquecimento. Vitor faz tudo de forma extremamente orgânica.
Em Donatello, vemos Amendoim contar a história de sua vida por meio de lembranças que envolvem seu avô, que dá nome ao texto. O personagem e o avô são dois apaixonados por sorvete — sempre escolhem os mesmos sabores — até que, um dia, ainda na infância do menino, Donatello enfrenta uma crise que, após um susto, leva a um triste diagnóstico: Alzheimer. É nessa crise que o protagonista ganha um nome (ou melhor, um apelido): Amendoim.
Alerta spoiler
Amendoim nos compartilha suas memórias. E como nem tudo é um mar de rosas, ele nos leva das lembranças mais doces às mais azedas ou amargas, passando por tentativas de não esquecer. Para evitar que seu avô o esqueça — ou que ele mesmo se esqueça de quem é —, o menino, com 8 anos na época, decide criar um cardápio de memórias. Ele começa a investigar o sabor das coisas da vida para compará-las com os sorvetes: “Um domingo à tarde, com alguém que a gente ama: sabor de coco branco…”. Mesmo após descobrir que a vida não é — e, infelizmente, não pode ser — uma sorveteria, o protagonista continua montando seu cardápio por anos a fio, numa linda demonstração de um amor eternamente pueril pelo avô, seu maior herói da infância.
Não há cenários grandiosos ou efeitos especiais a serem mencionados, mas uma cenografia delicada e graciosa, assinada por Batata Rodriguez. Porém, a grandiosidade da Broadway não é necessária: o texto, a interpretação de Vitor, e a música, composta por Elton Towersey, sustentam perfeitamente a beleza que Donatello precisa.

Apesar de ser um monólogo, Vitor não está sozinho no palco. Lá, no canto direito mais ao fundo, podemos ver Felipe Sushi ao piano, que também assume o papel de contra-regra em alguns momentos. Sushi é destacado quando necessário e quase invisível quando não deve ser o foco, graças ao excelente desenho de luz do premiado Wagner Pinto. E tudo isso sob a competente direção da talentosa Victoria Ariante.
Mas tomem cuidado! Vitor Rocha é terrivelmente vilanesco (risos)! Donatello acontece em um teatro pequeno (como deve ser), e por isso o ator está o tempo todo muito perto do público. Com certeza, isso é para que ele possa ver de perto a cara de todo mundo, inchada do choro emocionado pelas palavras que ele mesmo escreveu.
Além de sabores e lembranças do avô, em Donatello, Vitor Rocha brinca carinhosamente com nossas memórias afetivas…
E Donatello tem gosto de QUERO MAIS!

Serviço
Até 10 de outubro
Local: Teatro Commune – R. da Consolação, 1218 – Consolação, São Paulo (Ao lado do Mackenzie)
Quando: quintas às 20h30
Preços: R$50,00 (meia) – R$100,00 (inteira)








