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#ArteviewNaPoltrona Review de “Toy Story 5” (2026)

Acredito que muitos se perguntavam: “Toy Story precisava mesmo de um quinto filme?“. Afinal, o terceiro encerrou a história de Woody e Andy de forma emocionante, e o quarto parecia ter dado um novo destino ao personagem. Mas bastou o filme começar para eu perceber que a pergunta talvez fosse outra: Toy Story ainda tem algo a dizer? E, para mim, a resposta é sim.

A Pixar entende que o mundo mudou. As crianças mudaram. A forma de brincar mudou. E é justamente sobre isso que Toy Story 5 decide falar.

Agora acompanhamos Bonnie um pouco mais velha, vivendo uma realidade muito comum nos dias de hoje. As brincadeiras dividem espaço com telas, aplicativos, amizades virtuais e uma tecnologia que ocupa cada vez mais espaço na infância. É nesse contexto que Jessie assume naturalmente o protagonismo da história. Woody continua importante, Buzz também está presente, mas o coração do filme agora pertence à cowgirl, que precisa lidar com uma geração de brinquedos vivendo uma realidade completamente diferente daquela que ela conhecia.

Achei essa mudança muito acertada. Seria fácil apostar apenas na nostalgia e colocar Woody novamente no centro de tudo. Em vez disso, a Pixar entende que, assim como Andy cresceu e Bonnie assumiu essa história, os próprios protagonistas também precisam evoluir.

O grande conflito gira em torno de Lilypad, um moderno dispositivo tecnológico criado para acompanhar Bonnie. Ela acaba assumindo o papel de antagonista, mas nunca da forma tradicional. Lilypad não é má. Ela realmente acredita que está fazendo o melhor para sua dona. Se Bonnie parece feliz diante de uma tela, por que insistir em brinquedos? É justamente essa lógica que torna a personagem tão interessante.

O filme não demoniza a tecnologia. Ele apenas faz um alerta sobre o que acontece quando ela começa a substituir a imaginação, as amizades e as experiências reais. Essa talvez seja a mensagem mais bonita do filme.

Não se trata de dizer que celulares ou tablets são os grandes vilões da infância. O problema aparece quando brincar deixa de ser criar histórias, correr, imaginar e socializar para se transformar apenas em consumir conteúdo. É uma discussão extremamente atual e que conversa tanto com crianças quanto com os adultos que cresceram acompanhando Toy Story.

Foi impossível não me emocionar nas cenas em que Bonnie sofre com o bullying vindo de suas amizades virtuais. E mais emocionante ainda é quando no final do filme, ela encontra coragem para chamar Blaze para brincar. Parece um gesto simples, mas ali o filme mostra que nenhuma tela consegue substituir uma amizade construída no mundo real.

Outro acerto está nos novos personagens. Rolinho é, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pelo humor do filme. Suas piadas funcionam o tempo inteiro e ele rapidamente conquista o público. Atlas e Clica também ajudam a renovar esse universo sem parecerem personagens colocados apenas para vender brinquedos. Até a divertida participação da Pizza de óculos, dublada por Bad Bunny, mesmo sendo curtinha.

Woody aparece menos do que nos filmes anteriores, mas sua presença continua importante. O personagem entende que agora faz parte de uma nova fase dessa história. Seu retorno emociona justamente porque ele não tenta recuperar o protagonismo. Ele ajuda Jessie a conduzir essa nova geração de brinquedos, e isso faz todo sentido dentro da evolução da franquia.

Se há algo que merece um elogio especial para o público brasileiro é a dublagem. Maisa surpreende como Lilypad. Sua interpretação evita transformar a personagem em uma vilã caricata e transmite exatamente a calma e a convicção de alguém que acredita estar fazendo a coisa certa. Já Rafael Infante simplesmente rouba a cena como Rolinho. Seu tempo de comédia é impecável e várias das melhores risadas do filme passam pela sua interpretação. É um daqueles casos em que a versão brasileira ganha personalidade própria e enriquece ainda mais a experiência.

Vi muita gente dizendo que Toy Story 5 lembra o primeiro filme. Sinceramente, não vejo isso como um problema. As situações podem até se repetir. O que muda são as crianças, os brinquedos e o tempo em que vivem. O conflito já não é mais Woody disputando espaço com Buzz. Agora são os brinquedos tentando encontrar seu lugar em uma infância cercada por telas. A essência continua a mesma, mas o contexto é completamente diferente.

Toy Story sempre falou sobre crescer. Primeiro acompanhamos Andy deixando a infância para trás. Depois vimos Woody entender que amar alguém também significa aprender a desapegar. Agora a franquia olha para as crianças de hoje e faz uma pergunta importante: será que elas ainda têm espaço para imaginar?

Saí do cinema gostando muito deste filme, afinal ele tinha uma razão para existir. Não vive apenas da nostalgia. Usa personagens que já amamos para discutir um tema extremamente atual, sem apontar culpados ou transformar a tecnologia em inimiga. Apenas nos lembra de algo que nunca deveria sair de moda: brincar continua sendo uma das formas mais bonitas de descobrir o mundo.

E talvez seja exatamente por isso que Toy Story continue funcionando quase trinta anos depois. Os brinquedos mudam. As crianças mudam. O mundo muda. Mas as boas histórias sempre encontram um jeito de conversar com cada nova geração.

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