#ArteviewNaPoltrona Review de “Moana (live-action)” (2026)
A Disney já nos acostumou com seus live-actions. Alguns conseguem encontrar um novo olhar para histórias que já conhecemos. Outros apenas recriam a animação com atores de carne e osso. Para mim, Moana entra exatamente nesse segundo grupo. E talvez esse seja seu maior problema.
A animação original nem completou dez anos e continua funcionando perfeitamente. Então é inevitável sair do cinema se perguntando: por que esse filme precisava existir agora?
A história é exatamente a mesma. Moana continua sendo a jovem escolhida pelo oceano para restaurar o coração de Te Fiti e salvar seu povo. No caminho, reencontra Maui, o semideus arrogante e carismático, e os dois vivem praticamente as mesmas aventuras, enfrentam os mesmos desafios e cantam as mesmas músicas que já conhecemos de cor.
Sim, e quando digo “as mesmas”, é porque o filme realmente faz um verdadeiro copia e cola da animação.
Não há mudanças importantes na narrativa, não existem novas camadas para os personagens e praticamente nenhuma cena faz você sentir que está assistindo a uma releitura. Durante boa parte da sessão, tive a impressão de que a animação simplesmente ganhou atores de carne e osso.
Isso significa que o filme é ruim? Não. Significa apenas que ele nunca encontra uma razão para justificar sua própria existência.
Quem segura boa parte da experiência é Catherine Laga’aia. Ela transmite a coragem, a sensibilidade e a curiosidade que fizeram Moana conquistar tanta gente em 2016. Sua atuação é muito boa e, em vários momentos, convence completamente como essa jovem que decide desafiar o destino para salvar sua ilha. Mas, ao mesmo tempo, a personagem não ganha nenhuma característica realmente nova. Catherine faz um excelente trabalho dando vida à Moana que já conhecíamos, mas o roteiro nunca permite que ela construa uma versão própria da personagem.
Dwayne Johnson também entrega exatamente aquilo que o público espera de Maui. É divertido, carismático e cumpre bem sua função. Mas senti uma atuação no piloto automático. Talvez porque o personagem já tenha sido interpretado por ele na animação, tudo parece uma repetição do que já vimos antes. Funciona, mas dificilmente surpreende.
Se existe um aspecto que merece muitos elogios é o cuidado da produção com a cultura polinésia. O filme investe em belas locações naturais, figurinos muito bem trabalhados e mantém o respeito às tradições que já eram um dos grandes acertos da animação. Nesse ponto, acredito que seja um dos live-actions mais autênticos que a Disney produziu nos últimos anos.

Visualmente também é bonito. A fotografia valoriza as paisagens, os efeitos especiais convencem e conseguem transformar em realidade vários momentos que pareciam impossíveis fora da animação. Mas, novamente, tudo isso acaba servindo apenas para reproduzir imagens que já existiam.
As músicas continuam ótimas, mas também não causam o mesmo impacto. Não porque perderam qualidade, e sim porque já fazem parte da memória de quem cresceu com a animação. Falta aquele fator surpresa que ajudou a transformar a trilha original em um fenômeno.
Se existe uma novidade musical que realmente vale a pena destacar, ela fica reservada para os créditos finais. “Along The Way” é a única canção inédita do filme e funciona como uma bonita homenagem à trajetória de Moana.
Interpretada em um dueto por Auli’i Cravalho, a voz original da animação, e Catherine Laga’aia, protagonista do live-action, a música simboliza uma verdadeira passagem de bastão entre as duas atrizes. É um momento simples, mas bastante simbólico, e talvez a única novidade capaz de emocionar quem acompanha essa história desde 2016.
Como o filme não possui cena pós-créditos, vale a pena permanecer na sala para ouvi-la até o fim.
Dublagem brasileira
Outro aspecto que merece destaque é a dublagem brasileira, que continua sendo um dos grandes trunfos das produções da Disney. Saulo Vasconcelos retorna como Maui e mostra mais uma vez por que sua voz já se tornou inseparável do personagem. O ator mantém o carisma, o humor e a imponência que já conhecíamos da animação, tornando a transição para o live-action extremamente natural.
Já Bia Vasconcellos assume o desafio de substituir Any Gabrielly como Moana e faz isso com personalidade. Em vez de tentar reproduzir exatamente a interpretação da animação, adapta sua performance à atuação de Catherine Laga’aia, entregando uma voz que acompanha melhor as expressões da atriz sem perder a força das canções. É uma mudança que funciona muito bem e dá uma nova identidade à versão brasileira do filme.
E existe um desafio extra nesse trabalho. Enquanto a animação permitia uma interpretação mais livre, aqui a dublagem precisa acompanhar cada olhar, cada expressão e cada emoção de Catherine e Bia Vasconcelos entende essa diferença e entrega uma performance bastante convincente, principalmente nos números musicais.
A versão brasileira ainda reserva um carinho especial para quem acompanha o teatro musical. Nabia Vilela interpreta a Avó Tala, a atriz está atualmente nos palcos no musical Vindos de Longe, e Analu Pimenta, que está recentemente em Tina – Tina Turner, O Musical e conquistou o público como uma das vozes de Guerreiras do K-Pop, assume a dublagem de Sina, mãe de Moana.
Vi muita gente dizendo que todo remake precisa mudar completamente a história. Eu nem concordo com isso. Acho que uma nova versão pode ser bastante fiel ao original e ainda assim justificar sua existência. O problema de Moana é que ele é fiel demais. Em vez de oferecer uma nova perspectiva, novas cenas ou um olhar diferente sobre seus personagens, prefere repetir quase tudo o que já havia sido feito.
Se alguém nunca viu a animação, provavelmente vai se encantar com essa aventura. Afinal, continua sendo uma ótima história. Mas quem conhece o original dificilmente encontrará aqui algo que faça essa viagem parecer diferente.
No fim, Moana não decepciona porque é mal feito. Decepciona porque desperdiça a oportunidade de reinventar uma obra que ainda é recente, preferindo apenas reproduzi-la. É um live-action competente, respeitoso e visualmente bonito, mas que acrescenta tão pouco à história original que acaba parecendo mais um exercício de nostalgia do que uma nova aventura.
Talvez esteja na hora de a Disney desacelerar um pouco essa fábrica de live-actions. Não porque o formato esteja esgotado, mas porque ele começa a dar sinais de saturação ao adaptar animações tão recentes sem encontrar um novo olhar para elas. O problema nunca foi revisitar grandes clássicos. O problema é revisitar histórias que ainda funcionam perfeitamente e devolvê-las ao público praticamente iguais. Em alguns casos, fica a sensação de que a prioridade é aproveitar o reconhecimento dessas marcas, e não oferecer uma nova experiência ao público. Quando isso acontece, o cinema deixa de surpreender e passa apenas a reproduzir algo que já existia.
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