#ArteviewNaPoltrona Review de Marsupilami: Confusão a Bordo (2026)
Existem filmes que sabemos exatamente para quem foram feitos. Marsupilami: Confusão a Bordo é um deles. A nova aventura do personagem criado por André Franquin aposta todas as suas fichas em um humor físico, exagerado e recheado de trapalhadas, muito característico das comédias francesas de Philippe Lacheau e sua trupe, “Bande à Fifi”. É um estilo que tem seu público, mas que, particularmente, não conversa muito comigo.
A história acompanha uma família separada que embarca em um cruzeiro para comemorar o aniversário do filho. O passeio, porém, esconde uma missão bem diferente: transportar um filhote de Marsupilami. Quando o simpático animal escapa e faz amizade com o garoto, a viagem se transforma em uma sequência de perseguições, confusões e situações completamente absurdas, enquanto pai, mãe e filho acabam redescobrindo os laços que haviam perdido.
O começo do filme funciona melhor. Confesso que dei boas risadas com algumas situações inesperadas e com o ritmo acelerado das primeiras confusões. Mas, conforme a história avança, o humor começa a repetir a mesma fórmula. As piadas ficam previsíveis, o exagero toma conta de praticamente todas as cenas e o terceiro ato perde bastante força. O desfecho consegue recuperar um pouco da emoção, mas até chegar lá o filme já havia me cansado.
O humor aposta em tropeços, caretas, perseguições e situações completamente absurdas. Em vários momentos, lembrei das antigas comédias de Renato Aragão e de Os Trapalhões, além do humor físico de Mr. Bean. Não porque os filmes sejam iguais, mas porque compartilham essa proposta de fazer rir através do exagero e das trapalhadas. Julien Arruti, inclusive, é quem mais abraça esse estilo e acaba assumindo o papel do grande atrapalhado da história. Quem cresceu gostando desse tipo de humor talvez se divirta bem mais do que eu.
Isso não significa que o longa não tenha qualidades. Muito pelo contrário. O próprio Marsupilami é um dos grandes acertos da produção. O trabalho de computação gráfica convence, o personagem é extremamente carismático e rouba a cena sempre que aparece. Suas expressões, sua energia e, principalmente, a amizade que desenvolve com o menino interpretado por Corentin Guillot rendem os momentos mais sinceros e emocionantes do filme.
Na verdade, essa relação entre os dois acaba sendo muito mais interessante do que boa parte das piadas. É através dessa amizade que o roteiro encontra sua melhor ideia: mostrar como um encontro improvável pode ajudar uma família a reencontrar aquilo que havia perdido. O Marsupilami acaba funcionando como o elo que aproxima novamente pai, mãe e filho, e é justamente quando o filme aposta nessa emoção que ele encontra seus melhores momentos.
Philippe Lacheau conduz bem o ritmo da comédia e entrega exatamente o tipo de filme que seus fãs esperam. Dá para perceber que existe um estilo próprio na forma como ele constrói suas piadas e seus personagens. Talvez por isso a recepção ao filme seja tão dividida: quem já conhece e gosta desse tipo de humor provavelmente vai aproveitar muito mais a experiência.
O meu maior problema está justamente aí. Eu já não consigo embarcar com facilidade nesse tipo de besteirol. Não porque ele seja necessariamente ruim, mas porque o roteiro acaba se apoiando mais na repetição das gags do que na construção de uma aventura realmente envolvente. E isso faz com que o Marsupilami, apesar de dar nome ao filme, divida o protagonismo com a história dessa família, quando eu gostaria de vê-lo ainda mais presente em cena.
Ainda assim, não acho que Marsupilami: Confusão a Bordo seja um filme feito sem carinho. Dá para perceber a intenção de criar uma aventura leve, despretensiosa e divertida para toda a família. O problema é que essa proposta funciona apenas em alguns momentos e acaba perdendo força ao longo da narrativa.
Não odiei Marsupilami: Confusão a Bordo. Também não posso dizer que gostei. Dei algumas risadas, achei o Marsupilami muito bem realizado e adorei a amizade dele com o garoto, que concentra os momentos mais emocionantes da história. Mas saí do cinema sem vontade de revê-lo e, sinceramente, sem saber se o recomendaria para a maioria dos meus amigos. Talvez eu simplesmente não seja o público desse tipo de comédia. Quem gosta de humor físico, exagerado e cheio de trapalhadas provavelmente encontrará aqui uma diversão honesta. Eu fiquei com a sensação de que o Marsupilami merecia uma aventura mais criativa e um roteiro que confiasse ainda mais no carisma do seu protagonista.
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