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#ArteviewNaPoltrona Review de “Obsessão” (2026)

Quando sentei para assistir Obsessão, imaginei encontrar mais um terror sobrenatural construído em torno de uma maldição ou de algum objeto misterioso. O filme até parte desse lugar, mas logo deixa claro que seu verdadeiro interesse não está no sobrenatural. O horror aqui nasce de algo muito mais próximo: a dificuldade de aceitar a rejeição, a obsessão travestida de amor e o desejo de transformar outra pessoa em algo que ela nunca escolheu ser.

A história acompanha Bear, interpretado por Michael Johnston, um jovem apaixonado por sua amiga Nikki, vivida por Inde Navarrette. Incapaz de lidar com seus sentimentos, ele recorre a um artefato capaz de realizar desejos e pede que ela se apaixone por ele. O que parece a realização de uma fantasia romântica rapidamente se transforma em algo desconfortável, porque o filme entende uma verdade simples: amor sem escolha não é amor.

O que mais me chamou atenção foi justamente a forma como a narrativa brinca com arquétipos que o próprio cinema ajudou a popularizar durante décadas. Quantas vezes vimos histórias em que insistência era confundida com romantismo? Quantas vezes personagens obcecados eram tratados como heróis incompreendidos? Obsessão olha para esse tipo de comportamento por outro ângulo. O que antes poderia ser visto como prova de amor passa a parecer assustador.

Existe uma inteligência interessante na maneira como o diretor constrói essa transformação. O filme começa quase como uma comédia romântica estranha, com situações que poderiam facilmente pertencer a outro gênero. Aos poucos, porém, a atmosfera se contamina. O desconforto cresce, a dependência emocional se torna sufocante e a narrativa encontra imagens cada vez mais perturbadoras para representar algo que, no fundo, sempre esteve ali.

Ao mesmo tempo, confesso que saí da sessão com uma sensação dividida. Gostei do filme. Acho que funciona bem como entretenimento e possui temas relevantes para discutir. Mas também senti que parte da recepção talvez o tenha elevado além do que ele realmente entrega. Algumas ideias são mais interessantes do que o desenvolvimento delas. Em determinados momentos, o filme parece prometer uma profundidade psicológica que nunca explora completamente.

Ainda assim, há méritos importantes. A atuação de Inde Navarrette é uma das forças da produção. Nikki passa por transformações delicadas ao longo da narrativa, e a atriz consegue navegar por essas mudanças sem perder a humanidade da personagem. Já Michael Johnston constrói um protagonista que oscila entre vulnerabilidade e inquietação, fazendo com que o espectador compreenda seus sentimentos sem necessariamente concordar com suas escolhas.

Visualmente, o filme também encontra boas soluções. O sobrenatural nunca parece mais importante do que os conflitos emocionais. Os elementos fantásticos funcionam como uma extensão dos desejos e inseguranças dos personagens. É menos uma história sobre magia e mais uma história sobre o que acontece quando alguém acredita ter o direito de controlar os sentimentos de outra pessoa.

E é justamente por isso que o final acaba sendo a parte que mais permaneceu comigo depois dos créditos. Segue com spoilers.

Quando Bear percebe que a única forma de libertar Nikki é sacrificar a própria vida, o filme encontra seu momento mais honesto. Pela primeira vez, ele toma uma decisão que não nasce da posse, mas da renúncia. É um gesto que finalmente reconhece aquilo que deveria ter entendido desde o início: amar alguém também significa permitir que essa pessoa escolha.

Mas o filme é inteligente ao não encerrar tudo de forma tão simples. Antes da morte de Bear, Nikki também faz um pedido. E nunca descobrimos qual foi esse desejo.

A interpretação mais óbvia seria imaginar que ela desejou ficar com ele. Mas, para mim, isso enfraqueceria tudo o que a narrativa construiu até então. Sempre enxerguei aquele momento de outra forma. Talvez Nikki tenha desejado liberdade. Talvez tenha desejado paz para os dois. Talvez tenha apenas desejado que aquele ciclo finalmente terminasse. O filme não responde, e essa ausência de resposta acaba sendo mais interessante do que qualquer explicação.

No fim, Obsessão funciona melhor quando abandona a ideia de ser apenas um filme de terror e se transforma em uma reflexão sobre controle, carência e consentimento. Não acho que seja a obra definitiva que algumas críticas sugerem. Talvez seja até um pouco superestimado. Mas existe algo genuinamente interessante em sua proposta.

Porque, no fundo, o filme não pergunta o que acontece quando um desejo se realiza. Ele pergunta o que sobra quando percebemos que aquilo que chamávamos de amor talvez nunca tenha sido amor de verdade.

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