#ArteviewNaPoltrona Review de Sombras no Deserto (2025)
Lotfy Nathan parte de uma premissa potente em Sombras no Deserto (The Carpenter’s Son): reimaginar mitos e evangelhos apócrifos sob a lente do horror psicológico. O cenário é um deserto estranho, onde uma família tenta proteger uma criança que manifesta sinais de um poder inexplicável — e onde a fé, o medo e a culpa se misturam até virar areia.
Visualmente, o filme funciona. A fotografia seca, os enquadramentos que valorizam a paisagem e a paleta de cores desidratadas transformam o deserto num personagem: belo, implacável e silencioso. Lotfy constrói imagens memoráveis — planos que ficam na mente mesmo quando a narrativa vacila.
No centro, Nicolas Cage oferece uma interpretação contida, mais interiorizada do que o público recente dele costuma ver. Noah Jupe é quem sustenta o filme: sua entrega como a criança ambígua traz a tensão necessária e rende alguns dos melhores momentos da projeção. FKA twigs é, sem dúvidas, a presença mais hipnótica em cena — visualmente magnética, sua personagem evoca ritual e mistério — porém o roteiro não sabe muito bem o que fazer com ela. A presença estética existe; o desenvolvimento dramático, nem sempre.
É aí que o filme revela suas limitações. A ambição temática — fé, milagre, culpa — descamba para um ritmo excessivamente contemplativo que reduz o impacto do terror. Onde se esperaria sustos, suspense claro ou construção crescente de pavor, Alguns efeitos práticos e sequências grotescas chamam atenção, mas são pontuais. No final é “muito conceito, pouca perna”, é um filme de beleza e intenções fortes — um exercício estético sobre fé e medo —, mas que tropeça ao transformar essa ambição em terror eficaz.
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