Jordan Peele, através da Monkeypaw Productions, apresenta GOAT (HIM) — um terror esportivo que ousa misturar horror psicológico, cultura do futebol americano e crítica social. Dirigido por Justin Tipping, o filme tinha tudo para ser mais uma obra provocativa, mas acabou dividido entre potência e excesso.
No centro da trama, Cameron Cade (Tyriq Withers), jovem promessa do esporte, entra em um mundo onde a glória exige sacrifícios quase sobre-humanos. Guiado e manipulado pelo mentor Isaiah White (Marlon Wayans, em um raro papel dramático), ele descobre que o título de “GOAT” — Greatest Of All Time — pode custar não só o corpo, mas a alma.
O filme transita entre o brutal e o simbólico. Anderson não dirige aqui, mas a mão de Peele como produtor se sente na escolha de metáforas: o campo de futebol como altar, a multidão como culto, a performance esportiva como ritual de sacrifício. Cada tackle, cada impacto, ecoa como mais que violência física: é sobre concussões, memórias destruídas e a idolatria de transformar atletas em deuses.
A fotografia de Albuquerque e do Spaceport America reforça essa ideia: vastidões desérticas e estádios que mais parecem templos. A trilha de Bobby Krlic amplia a sensação ritualística, misturando batidas quase litúrgicas com o som pesado do choque entre corpos.
Mas se a proposta é ousada, a execução divide opiniões. Alguns críticos elogiam a estética poderosa; outros apontam ritmo irregular, excesso de símbolos e falta de profundidade dramática. O Rotten Tomatoes já mostra aprovação baixa, e Marlon Wayans respondeu dizendo que “arte é subjetiva”. Talvez seja exatamente isso: um filme que desperta paixão ou rejeição, sem meio-termo.
Mesmo com tropeços, HIM traz pontos fortes. Wayans surpreende na entrega dramática, Julia Fox e Tim Heidecker dão textura às subtramas, e Withers consegue segurar o peso de um protagonista em conflito entre humanidade e mito. Há também um certo frescor em ver o terror abraçar o esporte como metáfora — algo pouco explorado no cinema.
No fundo, HIM não é sobre vencer o jogo. É sobre o preço de querer ser eterno. O terror está em descobrir que, para ser lembrado como “o maior de todos os tempos”, você pode precisar perder tudo o que ainda o torna humano.
