#ArteviewNaPoltrona: Review de Lições de Liberdade (2025)

Algumas histórias parecem absurdas demais para serem verdade — e justamente por isso nos pegam em cheio. “Lições de Liberdade” (The Penguin Lessons) é uma delas. Baseado no livro autobiográfico de Tom Michell, o filme traz Steve Coogan na pele de um professor britânico que, durante uma viagem ao litoral uruguaio nos anos 1970, resgata um pinguim coberto de óleo. E, a partir daí, nada mais é como antes.

A trama se passa em plena ditadura militar argentina, mas esse pano de fundo político permanece quase invisível. A escolha do filme é clara: não mergulhar no contexto opressor da época, mas sim acompanhar a transformação delicada de um homem que havia se fechado para o mundo — até que um pinguim literalmente cruza seu caminho.

Juan Salvador, o pinguim, não é apenas o elemento “fofo” da história. Ele é o catalisador silencioso de uma mudança profunda. Sem emitir uma palavra, apenas com sua presença atenta e olhos curiosos, ele devolve a Tom uma conexão que parecia esquecida. A atuação de Coogan navega com equilíbrio entre o sarcasmo britânico e uma ternura contida, resultando numa performance que emociona sem nunca escorregar no sentimentalismo barato.

O filme encanta pela forma como constrói sua beleza: devagar, com calma, como quem escuta. A fotografia suave, as paisagens latino-americanas e a relação entre Tom e seus alunos vão aos poucos criando uma atmosfera de reencontro — com o outro e com o próprio passado. Há ecos de Sociedade dos Poetas Mortos, mas aqui os silêncios dizem mais que discursos inflamados.

Ainda assim, a escolha por um tom mais leve cobra seu preço. A ditadura argentina, que poderia dar profundidade ao enredo, quase não aparece. E mesmo as dores mais íntimas — o luto, a solidão, a inadequação — são tratadas com certa delicadeza que, em alguns momentos, beira a superficialidade. Há quem sinta que o roteiro se apoia demais na singularidade da premissa — um homem e um pinguim — e entregue pouco além disso.

Mas talvez isso seja parte do charme. The Penguin Lessons não quer sacudir você. Quer lembrar, com doçura, da importância de escutar, de estar junto, de reconhecer o outro. E de como até o mais improvável dos encontros pode abrir rachaduras onde a luz entra.

No fim, é um pinguim que salva um homem. E talvez seja justamente isso que a gente esteja precisando ouvir.