#ArteviewNaPoltrona: Review do filme Hurry Up Tomorrow

Com Hurry Up Tomorrow, Abel Tesfaye (The Weeknd) encerra uma era e mergulha num thriller psicológico que transforma a obsessão em arte. Dirigido por Trey Edward Shults, o filme é denso, sensorial e carregado de camadas emocionais.

Imagine Misery, de Stephen King, atravessado pelo glamour tóxico da Hollywood atual. Adicione a estética neon da geração Z, uma trilha sonora sufocante e uma tensão que cresce como uma febre.

A história gira em torno de Anima (Jenna Ortega), uma fã obcecada que, após uma noite aparentemente inofensiva com Abel — repleta de conversas, um parque de diversões e músicas compartilhadas — decide amarrá-lo à cama do quarto de hotel. Ela o impede de sair e o confronta com as letras de suas próprias músicas, como quem tenta decifrar um enigma pessoal. Anima quer entender sua dor. Quer encontrar sentido no vazio que ele canta.

A comparação com Misery (1990), baseado na obra de Stephen King, é inevitável. Como Annie Wilkes, Anima ultrapassa a linha da devoção e passa a exigir explicações. Mas enquanto Annie busca manter viva a ficção, Anima busca a verdade. O roteiro, coescrito pelo próprio Abel Tesfaye, mergulha no lado sombrio da fama, onde a adoração vira cárcere e a linha entre afeto e obsessão desaparece. A trama questiona: Anima realmente existiu? Ou seria ela apenas um fragmento da mente exausta de Abel, uma personificação de seus próprios medos, culpas e traumas?

Essa ambiguidade é sustentada por uma estética onírica e uma montagem circular, em que os acontecimentos se repetem com pequenas variações — como memórias distorcidas ou delírios febris. É uma experiência mais sensorial do que linear.

Jenna Ortega brilha num papel difícil: ao mesmo tempo afetuosa e perturbadora, sua personagem transita entre musa, terapeuta, algoz e projeção. Abel, por sua vez, surpreende com uma atuação contida e vulnerável — mais honesta que em The Idol.

Barry Keoghan surge como um “amigo” produtor que representa a pressão tóxica da indústria: cobra produtividade, oferece drogas como solução e explora o artista até o limite. Sua presença é inquietante, como uma ameaça silenciosa sempre prestes a explodir.

A trilha sonora é parte essencial da experiência. Instrumental e atmosférica, ela carrega o filme como um fluxo de consciência, potencializando o mergulho na mente do protagonista.

Hurry Up Tomorrow é para quem está disposto a se perder. A narrativa é densa, às vezes sufocante, mas cheia de pequenas epifanias. O filme não quer agradar — quer provocar. Apesar da proposta ousada, o filme pode dividir opiniões. O mix de alucinação, delírio e realidade — podem frustrar quem busca uma conclusão clara. Mas é nesse processo, revela mais sobre o artista por trás do ídolo do que qualquer entrevista poderia.

Nota: ★★★★★ (5 de 5)