Por Léo Braga
Todo mundo com menos de 47 anos, nasceu depois da morte de Elvis Presley, mas eu não conheço uma pessoa sequer que não conheça aquele que foi, ainda em vida, chamado de Rei do Rock. Talvez, esse seja o maior motivo para falarmos tanto aquela máxima: Elvis não morreu.
Com as cortinas fechadas, o terceiro sinal soa e o ator Beto Sargentelli vem ao proscênio e, apesar de já caracterizado para dar vida a Elvis, dirige-se ao público como Artista para em uma introdução da encenação que veremos e nos conta um pouco sobre sua relação com Elvis e, por conseguinte, com seu pai, que era grande fã e chegou a fazer shows como cover do Rei do Rock.

Com as cortinas abertas, não veremos mais Beto Sargentelli, mas Elvis em sua decadência artística e com o moral mais do que abalado. Com uma fórmula já conhecida, mas funcional, o astro está em uma crise no seu camarim e, ao se olhar no espelho, sua história toma forma para que possamos viver um pouco sua vida, mesmo que como espectadores.
Beto, como de costume, faz um excelente trabalho de atuação nos permitindo saber facilmente quem é o Elvis criança, o adolescente, o adulto sem precisar mudar brutalmente a caracterização durante a peça.
Com um roteiro bem construído, somos apresentados a personagens que fizeram parte da história de Elvis para o bem ou para o mal. Vários dos atores merecem ser destacados pelas suas excelentes e marcantes participações. Os gentis pais de Elvis são vividos por Romis Ferreira e Stella Maria Rodrigues. Priscilla, a esposa do roqueiro, é interpretada de forma extremamente carismática por Bel Moreira.

Além deles, temos no elenco atores conhecidos há tempos pelo público de musicais, como Rafael Pucca, Luiz Pacini, Léo Romano e a maravilhosa Neusa Romano. Além de outros nomes como Nathalia Serra, Aquiles e Gui Giannetto.
Embora algumas pessoas conheçam o BB King só pela música do Roupa Nova, o Rei do Blues está muito bem representado por Danilo Moura e a Maravilhosa Sister Rosetta Tharpe ganha vida pela excelente Tati Christine, que entrega uma poderosa voz e uma interpretação de primeira.

Toda essa maravilha ainda tem uma “cereja no bolo”: o genial Stepan Nercessian, que tem o total domínio da plateia, sem se prender a uma interpretação careta do Coronel Tom Parker, empresário de Elvis.
Sem me prender muito na contação de história, quero pontuar algumas partes que acho espetaculares para além do espetáculo:
- as cenas em que Elvis interage com a plateia, cheias de sensualidade e com enorme referência ao que o real Elvis fazia.
- A reprodução do vídeo em que Elvis foi ao programa do Sinatra (Rafael Pucca) é um momento em que podemos dizer que o diretor João Fonseca se encheu de esmeros para fazer algo impecável – e conseguiu.
- E a melhor parte do espetáculo: o final do primeiro ato, quando Glady (Stella Maria Rodrigues) está perto da morte e canta Bridge over troubled water com seu filho. Seguidos pelo ensemble entoando lindamente a canção para nos arrepiar até a alma. É, sem dúvida, uma daquelas cenas que a gente pode dizer “caramba, eu sairia de casa só para assistir a esta cena”.
As músicas de Elvis são tão conhecidas – e clássicas – que dá até medo quando alguém se arrisca a mexer em um arranjo sequer, mas a direção musical de Thiago Gimenes é de uma competência impressionante. Além de uma banda incrível, ainda podemos ver alguns dos atores tocando enquanto fazem a cena, como é o caso de Carol Olly.
Toda a movimentação e coreografia são inteligentemente pensadas por Keila Bueno, que tem se mostrado cada vez mais consistente a cada trabalho.
Paulo Cesar Medeiros ficou encarregado do lindo desenho de luz enquanto Fábio Namatame ficou responsável pelo figurino e Marcos Padilha entregou um visagismo. Juntos, entregam uma beleza visual que fica mais bonita com o cenário de Giorgia Massetani.
Beto Sargentelli além de atuar, cantar e dançar em O Rei do Rock, também idealizou, produziu e escreveu toda a dramaturgia linda que nos entrega a cada espetáculo. Beto é um artista que só quem não viu, não admira. Como já disse o crítico Claudio Erlichman, “Que sorte temos de viver no mesmo tempo que Beto Sargentelli”.

O Rei do Rock fica em cartaz no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro até 08/12/2024, com ingressos a R$5,00.
