MUSICAIS
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Leo Braga
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#ArteviewNaPlateia – Review do musical Hairspray
Por Léo Braga
Quinze anos após estrear no Brasil pela primeira vez, Hairspray retornou aos nossos palcos com uma nova encenação. A única semelhança com aquela montagem, além da história cativante, é a presença de Tiago Abravanel, que participou da temporada carioca de 2009, mas não seguiu com o elenco para São Paulo. Desta vez, o público paulistano tem a sorte de ver o ator interpretando de forma brilhante Edna Turnblad, mãe da protagonista Tracy.

Logo ao entrar na sala de espetáculo, o público é recebido pelas luzes de ribalta, que geralmente anunciam uma grande apresentação, e pelo cenário cartunesco criado por Rogério Falcão. Este cenário foge do teatro hiperrealista, tão comum em muitas montagens, e surpreende com sua originalidade. Um verdadeiro presente para os olhos da plateia, o cenário ainda reserva um detalhe interessante para os mais atentos: as luzes à beira do palco formam a imagem de um televisor, completo com antenas. O desenho de luz, assinado por Wagner Antônio, é um trabalho primoroso, complementando perfeitamente a atmosfera da peça.
Ao soar o terceiro sinal, somos transportados para a Baltimore dos anos 60, onde a protagonista começa um dia comum de aula, enfrentando as delícias e dores da adolescência. Vânia Canto nos apresenta a icônica Tracy Turnblad, personagem que todo fã de musicais conhece. Tracy, que fez muitos de nós nos apaixonarmos por musicais, sonha em ser famosa e dançar na televisão, assim como Fanny Brice sonhava em dominar os palcos. Vânia, que recentemente brilhou como Fanny na montagem brasileira de Funny Girl, encarna a sonhadora e idealista Srta. Turnblad com uma performance impecável, sem remeter à sua personagem anterior.

A primeira cena já impressiona com as belas perucas (Feliciano San Roman) e figurinos deslumbrantes (Bruno Oliveira), que podem causar inveja a muitas produções recentes. E o melhor ainda está por vir, com destaque para o deslumbrante vestido final usado por Tiago Abravanel. Prepare-se para um show de cores vibrantes no palco, com figurinos que eletrizam pela intensidade e beleza! O trabalho de transformação de Tiago Abravanel em uma mulher extremamente convincente, feito por Luciano Paradella, merece aplausos, assim como todo o design de maquiagem.

À medida que a história se desenrola, somos apresentados a diversos personagens, todos magistralmente interpretados por seus atores. Alguns membros do elenco podem não ser tão conhecidos do grande público, mas já trilham com competência uma longa carreira nos musicais. Entre esses talentos, destaca-se Liane Maia, que encarna com grandiosidade e elegância a vilã Velma Von Tussle, mãe da igualmente detestável Amber, interpretada pela talentosa Verônica Goeldi. Juntas, como mãe e filha, as duas atrizes têm uma química tão forte em cena que ficamos desejando vê-las cada vez mais.
Entre os talentos menos conhecidos pelo público do teatro musical, destacamos Lindsay Paulino, que, ao interpretar vários personagens, arranca gargalhadas do público a cada entrada em cena. Vindo da comédia para o teatro musical, o ator pode ser novidade para muitos, inclusive para mim, que só o conheci após a divulgação do elenco. Paulino brilha em papéis como Wilburn, pai de Tracy, o diretor da escola onde ela estuda, e o Sr. Pinky, dono da loja ‘Curvas Divinas – Roupas Transadas para Grandes Meninas’.

Além de Lindsay, Giovanna Zotti também se destaca ao interpretar múltiplos personagens com muito humor. Ela brilha nos papéis de Prudy, mãe de Penny (sobre quem falarei mais adiante), da professora de Educação Física e da divertida Carcereira.
Os fãs de teatro musical têm motivos para comemorar a participação de Ivan Parente. O ator, vencedor do prêmio Bibi Ferreira por outro papel cômico no mesmo palco, agora dá vida a Corny Collins. Parente entrega um apresentador que, embora seja original, traz uma mistura dos grandes ícones dos programas de auditório do país, tão presentes em nosso imaginário coletivo que o público se pega esperando o próximo bordão famoso.
Quando somos apresentados à atrapalhada Penny (Pâmela Rossini), logo percebemos que ela é a fiel escudeira e melhor amiga de Tracy. Porém, ao conhecer seu crush, Seaweed (Thales Cesar), vemos uma uma chama acesa naquele palco. Ambos se entregam de tal forma aos personagens que até uma simples troca de olhares transmite a intensidade de uma paixão adolescente. Pâmela e Thales encaixam-se perfeitamente em seus papéis, vivendo uma relação interracial em uma Baltimore ainda profundamente marcada pelo preconceito nos anos 60 – uma temática que, infelizmente, ainda soa muito atual, não é mesmo?
Ainda no elenco principal, Rodrigo Garcia dá vida a Link Larkin, o jovem aspirante a ser o novo Elvis Presley. O talento de Rodrigo já é amplamente reconhecido, mas o que realmente impressiona é sua capacidade de transformar um personagem comum e desinteressante em alguém por quem o público torce de verdade. Se isso não é talento, não sei o que seria.

No final do primeiro ato, somos apresentados a Maybelle, interpretada por Aline Cunha, mãe de Seaweed e apresentadora do Dia do Negro. Hairspray não apenas aborda o racismo, mas também levanta bandeiras importantes na luta antirracista. Além de tratar da gordofobia, o musical quebra paradigmas ao colocar uma protagonista gorda em destaque. A presença de Aline Cunha eleva o espetáculo a um patamar sublime. Maybelle, uma mulher preta e gorda, sonha com um mundo onde a igualdade racial seja uma realidade.
No segundo ato, que começa na prisão, vemos quase todo o elenco feminino atrás das grades para um número que pode parecer um pouco confuso. No entanto, a cena ganha destaque com a presença da carcereira interpretada por Giovanna Zotti e a excelente performance de Bernardo Berro como um policial que lembra o personagem Fucker and Sucker do Casseta & Planeta (ele fala em português, como se estivesse sendo dublado). Apesar de o papel poder parecer batido ou cansativo, a interpretação de Berro se destaca como um dos momentos mais engraçados do espetáculo. Quando o ator é bom, ele é realmente bom! Além disso, Berro também interpreta o Sr. Spritzer, dono do canal de TV.
O segundo ato flui de maneira excelente e apresenta diversos números de destaque, como a emocionante performance de ‘Eterno Pra Mim‘, onde Tiago Abravanel e Lindsay Paulino brilham ainda mais. Outro destaque é ‘Sem Amor‘, que apresenta o elenco jovem em uma ode ao amor, de forma bela e mais politizada do que em outras montagens. Esses momentos são verdadeiramente marcantes e elevam o nível do espetáculo.
Um pouco mais adiante, Aline Cunha nos presenteia com sua poderosa interpretação de ‘Eu Sei de Onde Eu Vim‘. Apesar do espetáculo ser longo, o tempo voa, e essa cena sozinha já justificaria o valor do ingresso. Embora eu tenha mencionado especialmente Aline, todo o ensemble que a acompanha no coro brilha de forma extraordinária. Em todas as vezes que assisti ao musical, essa cena foi aplaudida de pé por vários minutos, e cada uma dessas palmas é merecida. Aline Cunha é, sem dúvida, o grande destaque e o verdadeiro Sol deste espetáculo.
Hairspray conta com um elenco extenso, algo raro em musicais atuais, e, além dos protagonistas, o ensemble é composto por artistas de altíssimo nível. Não há ninguém que dance, cante ou atue de forma mediana. A produção fez uma escolha acertada ao escalar um elenco forte e coeso, quase perfeito. Os diretores Tinno Zani, Antonia Prado e Tiago Abravanel souberam explorar brilhantemente o talento de cada um dos membros do elenco.
O musical encerra com uma música que tira o fôlego de qualquer um: ‘Não Vamos Parar‘. Este número, extremamente desafiador, deixa pouco tempo para os atores respirarem entre uma nota e outra e exige uma coreografia complexa e bem elaborada de Tiago Dias. Sob a magnífica direção musical de Rafa Villar, em colaboração com Claudia Elizeu, que rege todo o espetáculo, esse número é tão intenso que, se ele não deixar cada membro do elenco sem fôlego, nada mais no mundo conseguirá.
A versão brasileira de Hairspray, assinada por Victor Mühlethaler, acerta em muitos aspectos, mas em alguns momentos pode parecer que houve um receio de se desviar das versões anteriores, o que pode resultar em escolhas que soam estranhas ou difíceis de compreender, mesmo com o impecável trabalho de Paulo Altafim no Design de Som. Mas tudo isso não compromete a experiência geral do espetáculo. Esse é, talvez, o único pequeno problema que eu vejo em Hairspray.
Quando anunciaram a montagem de Hairspray, eu pensei: ‘Mais um revival? Realmente precisamos disso?’ A resposta é um retumbante SIM! Hairspray aborda questões extremamente relevantes de forma atual e com muito bom humor.
Não apenas é um espetáculo necessário, mas é, sem dúvida, o melhor musical da temporada.
SERVIÇO
Quintas e sextas às 20h
Sábados e domingos às 15h e às 20h
Teatro Renault – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 – República, São Paulo
Ingressos: https://ticketsforfun.com.br/
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