#ArteviewNaPoltrona Review de Digger (2026)
Digger é um daqueles filmes que terminam e fazem a gente pensar: “o que foi isso?” Kkkkk.
Eu gostei do filme. Mas acho que nem tudo funciona perfeitamente, acho que ele é cansativo em alguns momentos. Gostei justamente da coragem de Alejandro González Iñárritu de fazer uma coisa completamente maluca, exagerada e diferente do que estamos acostumados a ver em um filme estrelado por Tom Cruise.
Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um bilionário do petróleo completamente megalomaníaco, responsável por uma exploração que ajuda a desencadear uma catástrofe ambiental de proporções gigantescas. É aquele personagem que você olha e pensa: esse homem realmente acredita que pode resolver o problema que ele mesmo criou. E o filme não economiza no exagero para construir essa figura. Cruise aparece completamente transformado pela maquiagem e caracterização, com cabelos brancos, corpo modificado e uma maneira de falar e se movimentar que transforma Digger quase em um desenho animado de um bilionário americano.
E eu gostei muito da atuação. É uma das coisas mais interessantes do filme justamente porque Cruise está muito longe daquele Tom Cruise que estamos acostumados a ver correndo, pulando, pilotando avião ou salvando o mundo. Aqui ele precisa fazer o contrário: criar um personagem grotesco, exagerado, egocêntrico e completamente convencido de que é indispensável. Não é uma atuação discreta e nem deveria ser. Digger é um homem que ocupa todos os espaços por onde passa, e Cruise compra essa ideia completamente. Não é à toa que a performance entrou na conversa do Oscar, embora a própria recepção crítica esteja bastante dividida sobre o filme e sobre as chances de Cruise.
A crítica ambiental também funciona para mim. Digger fala sobre um planeta levado ao limite pela exploração, pelo dinheiro e pela ideia de que sempre podemos retirar mais alguma coisa da natureza sem pagar a conta depois. Digger é justamente o homem que ajudou a criar o desastre e, quando percebe que aquilo pode destruir tudo, decide que também será o responsável por salvar a humanidade. Existe uma ironia enorme nisso, porque ele não consegue enxergar o próprio papel no problema. Para ele, continua sendo o herói da própria história.
E a crítica política é ainda mais direta. É uma caricatura. O filme não está tentando ser sutil nesse aspecto. Ele quer apontar o dedo para políticos, militares, bilionários e para uma estrutura de poder que parece sempre mais preocupada em controlar a narrativa do que em resolver o problema.
E aí entra Riz Ahmed, que para mim é um dos grandes responsáveis por trazer um pouco mais de leveza para toda essa loucura. Ele interpreta Ganesh, o cientista que acaba envolvido diretamente naquela situação, e funciona muito bem ao lado de Cruise. Sandra Hüller também está ótima, embora tenha menos espaço para desenvolver sua personagem. Os dois ajudam a equilibrar um filme que poderia facilmente ficar preso apenas no exagero de Digger.
O humor, para mim, ficou no meio do caminho. Algumas situações funcionam, outras são engraçadas justamente pelo absurdo, mas não foi um filme em que eu fiquei gargalhando. E consigo entender completamente quem vai amar esse tipo de humor e quem vai achar tudo exagerado demais.
Digger é um filme que prende, mas cansa. São pouco mais de duas horas de uma história que está constantemente aumentando a própria loucura, e chega um momento em que eu queria que algumas coisas andassem um pouco mais rápido. Ainda assim, nunca perdi completamente o interesse, principalmente porque queria saber onde aquilo tudo iria chegar.
E aqui eu preciso tomar cuidado, porque Digger tem algumas surpresas que mudam completamente a maneira como enxergamos o que está acontecendo. Então não vou explicar a grande virada do filme. E acho melhor nem saber antes de assistir. O mais interessante é entrar naquela história acreditando que está acompanhando uma coisa e descobrir aos poucos que talvez o filme esteja falando de outra. É uma escolha bastante ousada de Iñárritu e, para mim, funcionou.
Talvez seja justamente por isso que eu entenda tanto a divisão da crítica. Tem gente que enxergou uma sátira ambiental ambiciosa, estranha e surpreendente, enquanto outros acharam o filme pretensioso, barulhento, confuso e pouco engraçado.
Gostei da loucura. Gostei de ver Tom Cruise fazendo algo tão diferente. Gostei da crítica ambiental e política, gostei de Riz Ahmed e gostei principalmente de como o filme vai se transformando conforme a história avança.
Mas não vou fingir que tudo funcionou. É cansativo, nem sempre engraçado e, em alguns momentos, parece que Iñárritu está tão apaixonado pela própria ideia que esquece que o público precisa acompanhar aquela viagem.
Não acho que seja perfeito e definitivamente não é para todo mundo. Mas, entre fazer mais um filme convencional ou colocar Tom Cruise dentro de uma maquiagem absurda para interpretar um bilionário do petróleo em uma história que parece estar enlouquecendo junto com o planeta, eu fico feliz que Iñárritu tenha escolhido a segunda opção.
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