#ArteviewNaPoltrona Review de “Backrooms: Um Não-Lugar” (2026)

Quando sentei para assistir Backrooms: Um Não-Lugar, sabia que não estava entrando em um terror convencional. A fama que o conceito construiu na internet sempre esteve ligada ao desconforto, ao estranhamento e à sensação de estar preso em um lugar que desafia qualquer lógica. O que eu não esperava era passar boa parte da sessão tentando entender o que estava acontecendo e terminar o filme ainda fazendo perguntas.

A história acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis que descobre uma passagem para as misteriosas Backrooms e desaparece dentro daquele universo impossível. Anos depois, Mary (Renate Reinsve), sua terapeuta, decide procurá-lo. O que começa como uma busca por respostas se transforma em uma jornada por corredores infinitos, salas vazias, memórias distorcidas e uma realidade que parece reconstruir pessoas e lugares de forma imperfeita.

E talvez essa seja a ideia mais interessante do filme.

Em determinado momento, Clark explica que as Backrooms lembram das coisas, mas lembram errado. A partir daí, muita coisa passa a fazer sentido. Ou pelo menos faz sentido dentro da lógica daquele universo. O lugar recria ambientes, pessoas e situações, mas nunca exatamente como eram. Tudo parece uma lembrança defeituosa. Um sonho tentando reconstruir a realidade.

É por isso que Barbara, a ex-esposa de Clark, continua aparecendo. É por isso que Mary revisita elementos da própria infância. É por isso que as criaturas parecem tão estranhas. O filme sugere que as Backrooms não apenas copiam espaços físicos, mas absorvem memórias, traumas e arrependimentos.

E foi nesse ponto que o longa começou a me interessar mais.

Clark não está apenas preso em um labirinto. Ele parece preso à vida que acredita não ter vivido. Existe uma frustração constante com o sonho de ser arquiteto, com o casamento fracassado e com tudo aquilo que ficou pelo caminho. Em uma das melhores cenas do filme, Mary o confronta justamente sobre isso. Ela sugere que ele passou tanto tempo lamentando a vida que não teve que deixou de enxergar a vida que realmente construiu.

As Backrooms acabam funcionando como uma metáfora desse aprisionamento emocional. Clark não consegue sair porque continua voltando para os mesmos lugares, as mesmas memórias e os mesmos arrependimentos.

Mary possui um caminho diferente, mas igualmente doloroso. O filme sugere que sua mãe sofria de graves problemas psiquiátricos e que essa infância deixou marcas profundas. Conforme ela avança pelos corredores, surgem fragmentos da casa onde cresceu, lembranças da família e elementos que mostram que ela também carrega fantasmas próprios.

O problema é que o filme parece muito mais apaixonado pelo conceito do que pelos personagens.

Passei boa parte da sessão tentando entender quem eram Clark e Mary de verdade. O que aconteceu antes? Como chegaram até ali emocionalmente? Qual era exatamente a relação deles?

O filme oferece pistas, mas raramente respostas completas. Em vários momentos, eu me senti mais conectado ao mistério das Backrooms do que às pessoas que estavam atravessando aquele espaço.

Isso se reflete também em personagens como Kat (Lukita Maxwell) e Bobby (Finn Bennett). Os dois entram na história como peças importantes para a descoberta do fenômeno, desaparecem dentro das Backrooms e acabam se tornando mais um mistério em uma narrativa que já acumula muitos deles. O cartaz de desaparecidos mostrado perto do final confirma que eles existiram e realmente sumiram, mas o filme nunca oferece um fechamento para suas trajetórias.

O mesmo vale para Phil (Mark Duplass) e para a Async Research Institute. O longa sugere que a organização estuda as Backrooms há anos, que Phil já esteve lá dentro e conseguiu voltar, mas praticamente tudo permanece envolto em dúvidas. Eles sabem o que estão fazendo? Estão tentando ajudar? Criaram o problema ou apenas o descobriram? O filme prefere deixar essas perguntas abertas.

As criaturas seguem a mesma lógica. Existe um monstro alto que surge em momentos decisivos, mas o filme nunca explica totalmente sua origem. É uma entidade real? Uma manifestação dos traumas dos personagens? Uma criação das próprias Backrooms? Mais uma vez, o longa oferece possibilidades sem escolher uma resposta definitiva.

Visualmente, porém, é impossível negar o talento de Kane Parsons. A atmosfera funciona. Os corredores infinitos, as salas vazias, os sons distantes e a sensação constante de desorientação criam momentos genuinamente inquietantes. O diretor demonstra uma capacidade impressionante de transformar espaços comuns em lugares profundamente perturbadores.

O problema é que toda essa construção parece caminhar para um final que continua mais interessado em provocar dúvidas do que em organizar suas ideias.

Quando Mary aparentemente escapa, surgem novas perguntas. Ela realmente saiu? Os livros em sua mesa foram escritos depois da experiência? A destruição da casa da infância representa libertação ou apenas outra reconstrução das Backrooms? E por que a sensação de aprisionamento continua mesmo quando tudo parece ter terminado?

No fim, Backrooms: Um Não-Lugar é um filme que admiro mais do que gosto.

A ideia é fascinante. A atmosfera é excelente. As reflexões sobre memória, trauma e arrependimento possuem força. Mas a narrativa parece tão empenhada em construir mistérios que frequentemente esquece de construir conexões emocionais.

Não odiei o filme. Também não saí encantado. Saí curioso. E talvez essa seja exatamente a experiência que ele pretende provocar.

Passei duas horas tentando entender as Backrooms. Quando os créditos subiram, eu ainda estava tentando entendê-las.

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