#ArteviewNaPoltrona Review de Corrida dos Bichos (2026)

Corrida dos Bichos imagina um Rio de Janeiro de um futuro próximo, devastado por uma catástrofe ambiental, onde o antigo jogo do bicho virou um espetáculo para os ricos. De um lado estão os Jogadores, que apostam dinheiro nos participantes. Do outro, os Bichos, pessoas pobres que entram na competição colocando a própria vida e até seus familiares como garantia. É nesse cenário que Mano (Matheus Abreu) precisa entrar na disputa para tentar salvar a irmã.

A premissa é boa. O problema é que o filme nem sempre consegue transformar essa boa ideia em uma história igualmente interessante.

A crítica social é bastante clara: gente rica transformando a miséria dos outros em entretenimento e oportunidade de ganhar ainda mais dinheiro. Só que não é uma ideia exatamente nova. O filme lembra Jogos Vorazes, Round 6 e até Bacurau em alguns conceitos, principalmente nessa relação entre pessoas poderosas que observam, apostam ou se divertem com a violência sofrida por quem está em uma posição mais vulnerável. Corrida dos Bichos tenta colocar uma identidade brasileira nessa fórmula ao transformar o jogo do bicho em uma competição mortal, e essa é provavelmente a parte mais interessante da proposta.

Onde o filme realmente impressiona é no visual. O Rio de Janeiro distópico criado pela produção é muito bem realizado. As imagens são tão convincentes que em vários momentos parecem registros de um futuro possível da cidade. Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis conseguem criar um universo que tem personalidade e funciona muito bem nas cenas de ação. As corridas também entregam o que prometem, com boas sequências e uma produção que claramente não economizou.

O problema está justamente entre uma corrida e outra.

Mano demora muito para engrenar e, para mim, Matheus Abreu é o ponto mais fraco do elenco. O personagem deveria carregar praticamente toda a história, mas falta ao ator a força necessária para fazer desse protagonista alguém que realmente nos prenda. Durante boa parte do filme, é mais interessante acompanhar o mundo criado pela produção ou os personagens ao redor dele do que o próprio Mano.

E aí Rodrigo Santoro aparece e mostra por que é um dos grandes atores brasileiros. Como Abu, ele entrega um vilão carismático, perigoso e cheio de presença. Santoro entende perfeitamente como ocupar a tela e acaba roubando algumas cenas com facilidade.

Ísis Valverde funciona como a mulher que precisa se libertar de um marido abusivo e escroto, vivido por Bruno Gagliasso. É uma trama que poderia ter sido mais desenvolvida, mas cumpre sua função dentro da história. Grazi Massafera também se destaca como uma das mulheres de Abu.

Seu Jorge, por outro lado, está ótimo como o pai de Mano. Seu personagem tem uma participação importante na virada da história e é justamente ele quem incentiva o filho a entrar no jogo para tentar salvar a irmã. É um daqueles personagens que conseguem dar mais peso emocional à história sem precisar aparecer o tempo inteiro.

E tem Anitta. Sua participação é pequena. Ela aparece como uma das figuras ligadas à apresentação da Corrida e sua voz marcante funciona nas narrações do jogo. Mas parece mas como uma leitura e sem emoção de uma narradora de uma corrida desse porte. Além disso, o filme ganhou uma música que acabou chamando bastante atenção: a nova versão de “Bichos Escrotos”, dos Titãs, interpretada por Anitta e Tropkillaz. A faixa combina perfeitamente com a proposta do filme e acabou ganhando vida própria nas redes sociais.

Apesar de toda essa produção e de um elenco cheio de nomes conhecidos, Corrida dos Bichos nunca consegue alcançar a força que parece ter nos primeiros minutos. É como se o filme tivesse uma ideia maior do que o próprio roteiro consegue desenvolver.

A sensação fica ainda mais evidente porque já vimos estruturas semelhantes funcionando muito bem em produções internacionais. Round 6, por exemplo, consegue transformar uma competição mortal em uma discussão sobre desigualdade sem esquecer que, antes de tudo, precisamos nos importar com aquelas pessoas. Aqui, essa conexão demora mais para acontecer.

O filme também termina deixando claro que a história não acabou. Mano vence a temporada e consegue salvar a irmã, mas agora surge uma nova missão: continuar participando da Corrida para tentar acabar com todo o esquema.

A possibilidade de uma continuação existe e, pelo próprio universo criado, até poderia funcionar. Mas será que precisava? Essa é outra história. O primeiro filme já tinha um objetivo bastante claro e poderia terminar por aqui. Para transformar Corrida dos Bichos em uma franquia, seria necessário encontrar novas ideias e não simplesmente repetir as mesmas corridas com outros personagens.

No fim, Corrida dos Bichos não é um filme ruim, mas também está longe de ser o grande filme de ficção científica brasileiro que sua proposta poderia entregar. É visualmente excelente, tem boas cenas de ação, Rodrigo Santoro está muito bem e a ideia do jogo do bicho como espetáculo mortal é ótima. Mas o roteiro é irregular e seu protagonista não consegue sustentar sozinho toda essa estrutura.

Eu gostei mais ou menos. Reconheço o tamanho da produção e tudo que ela tenta fazer, mas não saí querendo assistir novamente e muito menos implorando por uma continuação. 😂

O filme termina dizendo que Mano ainda terá muito jogo pela frente. Agora resta saber se o público também está disposto a apostar em mais duas rodadas.

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