#ArteviewNaPoltrona Review de “Dia D” (2026)
Dia D (Disclosure Day) é o tipo de filme que corre o risco de frustrar quem entra na sessão esperando uma grande aventura sobre alienígenas. Sim, existem mistérios. Sim, existem segredos escondidos pelo governo. Sim, existem perguntas sobre vida extraterrestre. Mas, para mim, o filme nunca foi realmente sobre isso.
O que Steven Spielberg parece interessado em discutir é outra coisa: nossa dificuldade de nos comunicar, de ouvir uns aos outros e de conviver com aquilo que não compreendemos. Por isso, enquanto muita gente vai sair do cinema perguntando onde estavam os alienígenas, eu saí pensando nas pessoas.
A história acompanha Daniel, um especialista em cibersegurança que acaba descobrindo evidências de um contato extraterrestre que teria sido ocultado por décadas. Ao mesmo tempo, Margaret, passa a viver experiências inexplicáveis após um misterioso encontro que muda completamente sua percepção da realidade. Conforme os caminhos dos dois se cruzam, eles se veem envolvidos em uma trama que mistura governos, corporações, segredos mantidos por gerações e uma possível revelação capaz de alterar a forma como a humanidade enxerga seu lugar no universo.
Tudo isso parece apontar para um grande filme sobre alienígenas. E é justamente aí que muita gente pode se surpreender. Porque, embora os elementos de ficção científica estejam presentes o tempo todo, o filme fala sobre medo. Sobre como reagimos quando somos confrontados por algo desconhecido. Sobre como a desinformação, a desconfiança e a incapacidade de dialogar podem ser mais perigosas do que qualquer ameaça vinda do espaço.
Emily Blunt entrega uma das melhores atuações do filme. Sua personagem carrega boa parte do peso emocional da história e funciona como uma espécie de ponte entre o extraordinário e o humano. Mesmo quando a trama se torna mais grandiosa, ela mantém a narrativa conectada às emoções e aos conflitos das pessoas comuns.
Além dela o elenco ajuda bastante a sustentar a história. Colin Firth entrega uma atuação elegante e contida, transmitindo a sensação de alguém que sabe mais do que está disposto a revelar. Colman Domingo traz presença e autoridade sempre que aparece em cena, construindo um personagem que transita entre a razão e a preocupação diante do que está acontecendo.
Já Josh O’Connor talvez seja quem oferece o olhar mais humano da narrativa. Seu personagem funciona como um lembrete constante de que, por trás das teorias, conspirações e possíveis contatos extraterrestres, existem pessoas tentando entender o próprio lugar no mundo. Os três ajudam a dar peso emocional à trama e evitam que o filme se torne apenas uma discussão sobre fenômenos inexplicáveis.
Também gostei da decisão de Spielberg de não transformar tudo em espetáculo. Em vários momentos, o filme prefere observar as reações humanas em vez de mostrar explosões ou cenas de destruição. É uma escolha que certamente vai dividir opiniões, mas que faz sentido dentro da proposta da história.
Entendo quem sair frustrado. O marketing vende um filme sobre uma grande revelação para a humanidade. E, de certa forma, ele entrega isso. Só que a revelação não está necessariamente nos alienígenas. Está em nós. Está na forma como nos relacionamos, como criamos divisões, como deixamos de ouvir quem pensa diferente e como, muitas vezes, parecemos caminhar para a autodestruição sem perceber.
Dia D usa a ficção científica como ponto de partida, mas seu verdadeiro interesse está na humanidade. Talvez por isso eu tenha gostado tanto dele. Não saí do cinema pensando no que existe lá fora. Confesso que entendo quem vai sair frustrado da sessão. O marketing vende uma história sobre uma grande revelação envolvendo vida extraterrestre. Mas, para mim, o filme está muito mais interessado em discutir o que acontece com a humanidade quando ela é obrigada a encarar algo maior do que suas próprias certezas. Os alienígenas são quase uma desculpa para Spielberg falar sobre comunicação, empatia e convivência. Em uma época em que as pessoas parecem cada vez mais incapazes de ouvir umas às outras, essa talvez seja a parte mais interessante de toda a história.
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