Por Léo Braga
Quando foi anunciada a segunda montagem de Priscilla, a Rainha do Deserto para 2024, no mesmo teatro onde esteve em 2012, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que poderia ser uma cópia da montagem anterior. No entanto, ao ver a equipe criativa, fiquei feliz logo nos primeiros nomes. Apesar de ser a mesma história, desta vez a direção ficou por conta de Mariano Detry, o que já traz o ziriguidum da brasilidade que deixa tudo muito mais gostoso!
Assisti à primeira montagem de Priscilla no Brasil de maneira bem aleatória: ganhei o ingresso de uma amiga, pois estava desempregado e totalmente sem condições na época. O ingresso era para o balcão nobre do Teatro Bradesco, mas dei um jeito de ir para a primeira fileira da plateia (não façam isso!). Acabei dançando no palco, sendo puxado pela incrível Andrezza Massei, que também está na nova montagem como atriz convidada!
Minha intenção não é comparar as montagens, não faria sentido, até porque já se passaram 12 longos anos e eu poderia até cometer alguma injustiça. Com isso esclarecido, quero explicar outra coisa: desta vez, sentei direitinho no lugar marcado no meu ingresso!
O musical é baseado no filme homônimo de 1994, que fez um estrondoso sucesso e serviu como um empurrãozinho para que se falasse mais sobre a comunidade LGBTQIAP+. Isso porque em Priscilla acompanhamos uma deliciosa – e às vezes perigosa – viagem pelo Outback (também chamado de “deserto australiano”), na qual duas Drag Queens e uma mulher trans precisam ir de Sidney para Alice Springs em um antigo ônibus escolar, batizado de Priscilla.
Então, o personagem principal é um ônibus? Não! Toda essa viagem acontece porque Tick (Reynaldo Gianecchini) – ou Mitzi, quando em drag – deseja encontrar seu filho Benji (Matheus Vicente, Nico Takaki e Rodrigo Thomaz como alternantes), fruto de um casamento com Marion (Andrezza Massei). Para não viajar sozinho, Tick convence sua amiga Bernadette (Verônica Valentino e Wally Ruy como alternantes) e o jovem Adam/Felicia (Diego Martins) a se apresentarem na boate de Marion, sem mencionar o casamento ou o filho.
Como esperado de um musical de drags, Priscilla já começa com o astral super alto, com uma abertura instrumental seguida por três divinas Divas (Amanda Vicente, Claudia Noemi e Luci Salutes) cantando It’s Raining Men (talvez a música mais gay da história) e pela Drag Miss Cassie (Luan Carvalho) como uma carismática e piadista Mestre de Cerimônias. E é logo no meio desse primeiro número musical que Tick entra em cena.

Na minha opinião, Reynaldo Gianecchini não seria a melhor escolha para o papel da maior drag da Austrália, mas, assim que o ator entra em cena, o teatro quase vem abaixo com tantos aplausos, gritos e assovios. Gianecchini é uma estrela, e o reconhecimento do público se repete quando ele entra novamente para os agradecimentos ao final da apresentação.

A próxima personagem a entrar em cena é Bernadette, que, ainda de luto pela recente morte do marido, é rapidamente convencida a embarcar na aventura pelo deserto. Verônica Valentino, que já venceu o Prêmio Bibi Ferreira como Atriz Revelação, é um encanto no papel e brilha ainda mais quando Adam se junta à história.
Diego Martins, amplamente conhecido como Kevinho da novela Terra e Paixão, da Rede Globo, já tinha uma carreira como Drag Queen e venceu o programa Queen Stars Brasil da HBO Max. Como Adam, Diego é um arraso, mas como Felicia, ele pode ser considerado um espetáculo dentro do espetáculo
Eu disse que não compararia a montagem de 2012 com a de 2024, mas peço licença para fazer um paralelo: na primeira montagem, a melhor coisa do musical era, indubitavelmente, André Torquato no papel de Adam/Felicia. Na nova montagem, Diego é, sem sombra de dúvidas, a melhor parte do espetáculo! Se você teve a chance de ver qualquer um dos dois nesse papel, pode se considerar uma pessoa feliz!
Bernadette e Adam se detestam, mas Verônica e Diego se completam. Eles parecem estar sempre brincando em cena, mas brincando no melhor dos sentidos! A conexão entre eles é daquelas que você desejaria ter com qualquer pessoa de quem você gosta.
Com o elenco principal completo, ainda preciso mencionar Fabrizio Gorziza, que interpreta Bob, um mecânico chamado para consertar a Priscilla no meio do deserto. Fabrizio nos entrega um Bob dócil, carinhoso e apaixonado.
E (ALERTA DE SPOILER) as cenas de Bob com Bernadette são de arrancar suspiros até dos corações mais duros na plateia.
Falando em suspiros, eles também acontecem quando Tick encontra Benji. Gianni e o pequeno Nico Takaki nos entregam o dueto mais amável que você poderia imaginar ao som de Always on My Mind/I Say a Little Prayer (eu tentei segurar, mas meus olhos encheram de água).
Todo o texto foi muito bem traduzido e adaptado, de modo que não vemos problemas com piadas que possam ter envelhecido mal – e a peça tem tantas piadas que seria fácil cair numa cilada que causasse algum desconforto. Victor Mühlethaler, já tão conhecido por suas ótimas versões, acerta em cheio mais uma vez.
O ensemble é belíssimo, com muitos atores, cantores e bailarinos hiper talentosos, e as coreografias de Mariana Barros são de tirar o fôlego até de quem está sentado na plateia.
E eu poderia ficar por várias páginas falando da perfeição do figurino do maravilhoso Fábio Namatame, do visagismo assinado por Alisson Rodrigues e San Roman, dos cenários lindíssimos de Matt Kintey, as trocas de um cenário para outro são impecáveis. Mas posso resumir tudo isso mencionando que o espetáculo recebeu 10 indicações ao Prêmio Bibi Ferreira deste ano, ficando atrás apenas de Beetlejuice, com 12 indicações, e empatando com Cabaret – Kit Kat Club.
Priscilla, a Rainha do Deserto, que já cumpriu temporada em diversos países, como Inglaterra, Austrália, Itália, Japão, Singapura, entre outros, incluindo uma temporada de mais de um ano na Broadway, se despede novamente dos palcos brasileiros no próximo domingo (1), com todas as sessões esgotadas. Arrisco dizer que, se ficasse mais um ano em cartaz, continuaria lotando o teatro (com capacidade para 1.439 pessoas) todas as noites, celebrando a alegria de fazer parte da comunidade LGBTQIAP+.
