#ArteviewNaPoltrona Review de “Todo Mundo em Pânico” (2026)
Quando sentei para assistir Todo Mundo em Pânico, eu já sabia exatamente o que esperar. Ou pelo menos achava que sabia. Afinal, estamos falando de uma franquia que construiu sua identidade em cima do exagero, do humor absurdo, das referências escancaradas e das piadas que muitas vezes parecem surgir cinco segundos antes da filmagem. Vinte e seis anos depois do primeiro filme, seria ingenuidade esperar que ela se transformasse em algo refinado ou particularmente elegante.
O novo filme abraça completamente suas origens. Sim, o humor continua preso aos anos 2000. Sim, muitas piadas são bobas. Mas existe algo quase admirável na falta de vergonha que o filme tem de ser exatamente aquilo que sempre foi.
A trama serve apenas como desculpa para uma avalanche de paródias. Slashers modernos, cultura influencer, inteligência artificial, redes sociais, true crimes e sucessos recentes do terror entram no liquidificador da franquia e saem transformados em uma sequência de situações tão absurdas quanto imprevisíveis. E algumas delas funcionam muito bem.
O filme mantém aquele espírito de humor sem filtro que sempre dividiu opiniões. Quem nunca gostou da franquia provavelmente continuará sem gostar. Mas quem cresceu assistindo Cindy, Brenda, Ray e Shorty entende rapidamente o jogo que está sendo proposto.E é justamente aí que entra o maior acerto desta continuação.
Por boa parte do filme, parece que estamos assistindo a uma tentativa de renovação, com um grupo de personagens mais jovens, com cara de protagonistas de uma nova geração. Tudo parece caminhar para uma passagem de bastão bastante previsível.
Até que o próprio filme resolve zombar dessa ideia no final do filme quando os atores da nova geração falam que eles foram contratados para renovar a franquia, e os clássicos vem a reposta na ponta da língua: “Next generation my ass.”
É uma piada simples, mas que resume perfeitamente o espírito do longa. O filme sabe exatamente o que o público quer ver. E sabe que, por mais que existam novos personagens, ninguém foi ao cinema para substituir Cindy Campbell.
O retorno de Anna Faris e Regina Hall prova isso. Mesmo depois de tantos anos, a química entre as duas continua funcionando. Existe uma familiaridade imediata quando elas aparecem em cena. Não é apenas nostalgia. É a sensação de reencontrar personagens que ajudaram a definir uma era específica da comédia.
Os irmãos Wayans também entendem isso. Em vez de reinventar a franquia, eles preferem celebrar aquilo que ela sempre foi. E talvez seja justamente esse o motivo de tantas críticas negativas. O filme parece datado, preso ao passado e incapaz de dialogar completamente com o humor atual. E, honestamente, eles não estão errados.
Mas a questão não é se Todo Mundo em Pânico evoluiu. É saber se ele ainda consegue fazer rir. E, pelo menos no meu caso, conseguiu. Não porque seja brilhante. Não porque tenha uma grande história. Não porque esteja reinventando a comédia. Mas porque entende sua própria identidade.
Entre todas as paródias, confesso que a do filme Michael foi uma das que mais me pegou. A recriação do trailer da cinebiografia já seria engraçada por si só, mas a ideia de colocar Jermaine Jackson tentando convencer todo mundo de que ele deveria ser o verdadeiro protagonista eleva a cena para outro nível de absurdo. Quando ele começa a listar suas qualidades e garante que também sabe fazer moonwalk, apenas para executar uma versão completamente torta e estabanada do passo, o filme encontra aquele tipo de humor bobo que sabe exatamente o que está fazendo. Não é sofisticado, não é elegante, mas é difícil não rir.
Existe algo quase reconfortante em ver uma franquia que não tenta fingir ser outra coisa. Em uma época em que tantas continuações parecem obcecadas por legado, universos compartilhados e discursos grandiosos, Todo Mundo em Pânico escolhe um caminho muito mais simples.
Ele quer fazer piadas. Algumas funcionam. Outras não. Mas quando os créditos sobem, fica a sensação de que o filme cumpriu exatamente a promessa que fez. Não é uma reinvenção. Não é uma obra-prima, é um besteirol assumido, orgulhosamente preso aos anos 2000, que continua arrancando risadas de quem embarca na brincadeira, às vezes, isso já é mais do que suficiente.
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